Levava traje de nobilíssima, singela e recatada, cor vermelha, e ia cingida e adornada da forma que convinha à sua pouca idade. Digo que, nessa altura, o espírito vital que habita a secretíssima câmara do coração começou a latir com tanta força que se mostrava espantosamente nas menores pulsações. Tremendo, disse estas palavras: Ecce deus fortior me, qui veniens dominatibur mihi (1).
Nesse ponto, o espírito animal que mora na elevada câmara aonde todos os espíritos sensitivos do homem levam as suas percepções, começou a maravilhar-se muito e, dirigindo-se especialmente aos espíritos visuais disse estas palavras: Apparuit jam beatitudo vestra (2). Por seu turno, o espírito natural, que reside onde se elabora o nosso alimento, começou a chorar, e, chorando, disse: Heu miser! quia frequenter impeditus ero de inceps! (3)
(...)
Pensando nela, sobreveio-me suave sono no qual me apareceu uma visão maravilhosa: parecia-me ver no meu quarto uma nuvenzinha cor de fogo, em cujo interior discernia a figura de um homem de temeroso aspecto para todo o que olhasse; e mostrava-se, todavia, tão exultante, que era coisa maravilhosa. Entre muitas outras palavras que me dirigiu e que não pude entender, percebi esta: Ego dominus tuus (4). Parecia-me ver entre os seus braços uma pessoa adormecida, quase nua, apenas vestida de róseo cendal; olhando com maior atenção verifiquei que era a dama que no dia anterior se havia dignado saudar-me. E parecia-me que o homem sustentava numa das mãos algo que ardia intensamente, e, ainda, que me dizia estas palavras: Vide cor tuum (5).
(1) Eis um deus mais forte do que eu que vem para me dominar.
(2) Apareceu já a nossa felicidade.
(3) Ai de mim! que desde agora serei frequentemente atormentado.
(4) Eu sou o teu senhor.
(5) Vê o teu coração.
Excertos retirados da obra:
"Vida Nova" de Dante Alighieri
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