– Só mais uma coisa – acrescentou ele, sem tirar os olhos do espelho interior. – Não se esqueça do que lhe digo: as coisas não são o que parecem.
«As coisas não são o que parecem», repetiu Aomame na sua cabeça.
– O que pretende dizer com isso? – perguntou ela, com a testa franzida.
O taxista escolheu as palavras com todo o cuidado.
– Digo isto porque se prepara para fazer uma coisa fora do vulgar. Estou certo ou estou errado? Normalmente, não se vê ninguém descer pelas escadas de emergência de uma autoestrada metropolitana, à luz do dia. Sobretudo tratando-se de uma mulher.
– Lá nisso dou-lhe razão.
– Aí tem. E quando uma pessoa dá esse passo e faz uma coisa desse género, é provável que o cenário quotidiano... como hei de eu dizer?... pareça mudado. As coisas à nossa volta podem revelar-se um pouco diferentes do que é costume. Eu próprio já passei por essa experiência. Contudo, não se deixe iludir pelas aparências. A realidade é apenas uma.
(...)
– Realidade, existe apenas uma, sempre o disse - repetiu o condutor, lentamente como se estivesse a sublinhar uma passagem importante num livro.
– Claro – disse Aomame. O homem tinha razão. Um objecto físico só pode estar num determinado momento e num determinado lugar. Einstein demonstrou isso mesmo. A realidade é profundamente imperturbável e solitária de princípio ao fim.
Excerto retirado da obra: "1Q84" de Haruki Murakami
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