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A mostrar mensagens de março, 2014
Cópula: duas coisas distintas simulam uma ligação que a cada momento ameaça romper-se até ao momento em que definitivamente se rompe. Gonçalo M. Tavares, Breves notas sobre as ligações
Amor da minha vida Amor do meu coração Contigo comprei bilhete de ida E não te largo a mão
"The last man on Earth sat alone in a room. There was a knock on the door..." Fredric Brown,  Knock
Imagine all human beings swept off the face of the earth, excepting one man. Imagine this man in some vast city, New York or London. Imagine him on the third or fourth day of his solitude sitting in a house and hearing a ring at the door-bell!  Thomas Bailey Aldrich, Leaves from a note book

Fast food

Entro num bar Sento-me ao balcão Peço algo com álcool Seja o que for, mas com álcool Quero adormecer Anestesiar os sentidos Olho em redor Um antro de mulheres preenche o espaço Um bufete de pernas à espera de serem abertas E comidas com os talheres certos Volto-me para a bebida Esta seduz-me com as suas cores E deixo-me vir na sua direcção À minha volta as mulheres caminham Perscrutam quem lhes poderá desabrochar Muitas passam por mim Devoram o meu espaço vital Numa dança de acasalamento Mas eu já encontrei a minha parceira O meu bailado bebido Uma dança na qual sou exímio Mas como tudo, o fim aproximou-se Interrompeu abruptamente os nossos passos E não a quis substituir Aliviada a tensão, paguei e levantei-me O caminho até à porta assemelhava-se a um campo de batalha Trincheiras de mulheres comprimem-se à minha volta No ar um aroma a molhado Abro a porta e o exterior estende-se Nós saímos, eu e a minha parceira E juntos caminhámos
Hoje acordei Não disse nada Passou-se o dia Não disse nada Deitei-me Não disse nada Não sou mudo

Amor-próprio

"Imaginem um homenzinho dos mais insignificantes, dos mais pusilânimes, renegado da sociedade, inútil para todos, absolutamente imprestável, absolutamente nojento mas infinitamente presunçoso e, ainda por cima, sem quaisquer talentos que pudessem justificar o seu amor-próprio doentiamente irritado. Aviso desde já: Fomá Fomitch é uma encarnação do amor-próprio ilimitado mas ao mesmo tempo muito peculiar, ou seja; daquele que é inerente à mais completa insignificância e, como é habitual nestes casos, um amor-próprio ressentido, oprimido pelos graves azares do passado, pustulento desde havia muito e, desde havia muito, espremendo inveja e veneno a cada novo encontro e à vista de cada novo êxito alheio. Escusado será dizer que tudo isto era condimentado pela mais monstruosa susceptibilidade, pela cisma mais louca. Perguntar-me-ão: donde vem um amor-próprio assim, donde nasce tal nulidade absoluta em pessoas que, até pela sua situação social, deveriam saber qual era o seu lugar? Pois b...

São e salvo

Cheguei agora a casa meu amor! Podes ficar descansada, cheguei são e salvo. Bem sei que as visitas têm sido de curta duração e com elevados intervalos no tempo entre cada uma, mas é cada vez mais difícil andar com relativa segurança. O mundo continua infectado. Não se sabe o porquê, não se sabe como começou ou como irá acabar (se acabar). Utilizei o mesmo caminho de sempre, aquele que já mapeei e do qual conheço a disposição dos obstáculos e o peso e tamanho de cada pedra que enfeita este percurso. O caminho inspira alguma confiança - ainda não foi violado - e leva-me até ti, o que é um belo chamariz à sua travessia. Soube tão bem ver-te, aliás sabe sempre bem e poder aliviar a saudade faz-me ser capaz de respirar livremente. Sentir o peso do teu olhar e moldar os meus lábios ao teu corpo. E continuas tão bonita, tal como no primeiro dia em que te vi e me sorriste. Estás bem, em segurança. Espero que te saibam bem os doces que te levei, cada vez são mais difíceis de conseguir, to...