Amor-próprio

"Imaginem um homenzinho dos mais insignificantes, dos mais pusilânimes, renegado da sociedade, inútil para todos, absolutamente imprestável, absolutamente nojento mas infinitamente presunçoso e, ainda por cima, sem quaisquer talentos que pudessem justificar o seu amor-próprio doentiamente irritado. Aviso desde já: Fomá Fomitch é uma encarnação do amor-próprio ilimitado mas ao mesmo tempo muito peculiar, ou seja; daquele que é inerente à mais completa insignificância e, como é habitual nestes casos, um amor-próprio ressentido, oprimido pelos graves azares do passado, pustulento desde havia muito e, desde havia muito, espremendo inveja e veneno a cada novo encontro e à vista de cada novo êxito alheio. Escusado será dizer que tudo isto era condimentado pela mais monstruosa susceptibilidade, pela cisma mais louca. Perguntar-me-ão: donde vem um amor-próprio assim, donde nasce tal nulidade absoluta em pessoas que, até pela sua situação social, deveriam saber qual era o seu lugar? Pois bem, que resposta dar a esta pergunta? Quem sabe? Talvez existam excepções à regra, e o meu herói seja uma delas. Sim, ele é de facto uma exclusão à regra, o que será explicado mais tarde. Entretanto, permiti que pergunte: existe a certeza de que tais indivíduos já se resignaram por completo e consideram, no seu íntimo, uma honra e uma felicidade serem vossos bobos, os vossos comensais e os vossos papa-jantares? Tendes mesmo a certeza de que eles já abdicaram de qualquer amor-próprio? E a inveja, e os mexericos, e as delações, e as denúncias, e as resmunguices pelos cantos escondidos da vossa própria casa, ao vosso lado, à vossa mesa? ... Quem sabe, talvez em alguns desses errantes humilhados pelo destino, vossos bobos e vossos maluquinhos, o amor-próprio talvez não só tenha desaparecido por força da humilhação, a essas palhaçadas e bufonarias, ao comensalismo e à eterna submissão e impessoalidade. Quem sabe se um tal amor-próprio monstruosamente ampliado não é mais do que o sentimento da dignidade desfigurado desde o início, talvez ofendido ainda na infância pela opressão, pela pobreza, talvez ofendido já nos pais do futuro errante e na sua presença? Porém eu disse que Fomá Fomitch era, ainda por cima, uma exclusão à regra geral. E é verdade."

Fiódor Dostoiévski, "A aldeia de Stepantchikovo e os seus habitantes"

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