Num tom de gritar
Ele engana-te. Tu sabes. Eu sei que tu sabes, fazes questão
que eu saiba. Não sei como sabes, mas tu sabes, pois vociferar isso,
apontas-lhe acusatoriamente as palavras [e possivelmente o dedo]. Gritas,
berras, elevas a voz – tudo sinónimos para o teu comportamento. [Certa vez
disseste que estavas a tratar-te] Dizes que ele anda com esta, com aquela, com
a outra. Dizes “Pensas que eu não sei
onde vais, quando sais porta fora!”. Sabes para onde vai, o que faz, com
quem fala. [Dessa mesma vez gritaste que aí todos te batem – a tua mãe ainda te
bate, a ti, mulher “feita” com duas filhas]. Ele faz trinta por uma linha, come
esta, aquela, a outra. Tu sabes(?) e como reages? Gritas, berras, elevas a voz –
tudo sinónimos para o teu modo de resposta. Como música de fundo, sim isto não
vem a seco, surge uma voz, aliás uma vozinha, ou melhor uma vozinha que chora
com a força de três anos [horrível acordar e deitar com esse embalar]. Lá estas
outra vez a fazer uso à voz, má utilização, más palavras, como estas, dirigidas
à vozinha: “Com três anos e já mentes
assim? Hádes ir longe, hádes!” Hádes – a gritar não há tempo para hífen. Admito
que no pensamento, por vezes, forma-se a vontade de gritar, berrar, elevar a
voz [responder da mesma moeda – desadequado] “Porque é que não vais embora? Ele engana-te, a tua mãe oprime-te e as
tuas filhas frustram-te!” Pensamento errado. Erróneo. Não devo pensar
assim, os dados não estão todos na minha posse e não posso atirar só os que
possuo, pois o valor a sair iria ser baixo. Validade, fiabilidade,
sensibilidade baixa. O que fazer? Boa pergunta e agora a resposta é ... tramada. Eu sei o que se passa, mas nunca assisti ao espectáculo. Como
sei isto tudo? A resposta está na parede. Na parede que separa a divisão onde
estou da divisão onde vocês estão. Por vezes ouço falar num tom mais
baixo, diria até calmamente. Ou isso ou a parede engrossa.
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