Vertigem

Caminhava ao longo do penhasco, tinha chegado no raiar do dia sem que fosse o meu destino final, mas aí estava. O penhasco era colossal fazendo corar o mais alto dos gigantes.
Corria imenso vento, como se estivesse em perpétua competição consigo mesmo sobre qual de si iria chegar primeiro à meta.
Num processo calculado dava as minhas passadas para que o vento, no meio da sua corrida, não me derrubasse.
Para me acercar do penhasco escapuli-me por uma abertura que existia na fachada de uma casa que servia de portão. Só a partir dessa casa é possível aceder ao penhasco, mas esse monumento que era só fachada encontrava-se emparedado, mas já lá tinha estado e sabia que numa das janelas do piso térreo surgia a tal abertura pela qual passei.
Já do outro lado, aproximei-me do limite e no seu fundo um mar agitado e irritado por não poder prosseguir o seu curso cuspia e esmurrava as pedras que compunham esta gigante estátua da natureza. Sempre que dava um passo à frente, recuava dois. As vertigens eram muitas e forçavam esse recuo, não conseguia avançar sem elas tomarem controlo dos meus movimentos.
Cheguei ali com o intuito de seguir o canto das sereias, mas não tinha a coragem necessária para ir ao encontro delas. Continuei a andar, a procurar um local onde as vertigens não comandassem, mas sem efeito.
Estava prestes a desistir quando sinto uma presença. Viro-me, perscruto a área e deparo-me com os teus olhos de duas cores (verde e castanho).
Pergunto-te o que fazes aqui. Tu respondes que me vieste aliviar as vertigens. Num ato contínuo seguras-me na mão e acalmas o tremor.
Aproximamo-nos do limite do penhasco onde a corrida do vento se intensifica e o clamor do mar é de pura revolta. Aí ficámos parados a olhar o mundo que se dissipava no horizonte, sem nunca largar as mãos.
Decidimos encarar o canto das sereias e sem hesitar saltamos. Começámos a perceber que o fim não era este. Não caíamos. Nós voávamos, com um mundo inteiro à nossa disposição.

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