Liberdade
Já fui recluso. Fui aprisionado.
Enfiado num pequeno cubículo situado nos confins do mundo. Aí estive preso. A
minha liberdade tinha sido colocada em suspenso. Fui condenado por questionar e
trancado sem poder apelar a recurso.
Durante o meu confinamento não vi uma
única pessoa, nem uma sombra que se assemelhasse a tal. A minha única companhia
era o meu guarda, o carcereiro, também um condenado. Havia sido condenado pelo
crime de despersonalização da humanidade e a sentença do julgamento foi a de
ter de me guardar até ao fim de uma das nossas vidas.
Sei da existência de tal sujeito pela
simples pronúncia de um gesto. Não conversávamos, não dirigíamos uma única
palavra ao outro, apenas um gesto, o de fazer passar o tabuleiro da comida.
Através dessa momice fiquei ciente da sua presença e da sua função.
Durante vinte e quatro anos esse foi o
nosso único diálogo, a nossa única forma de comunicação. Nunca vi o seu rosto
ou qualquer outra parte do seu corpo. Nesses anos todos nada vi, nem mesmo a
mim, visto que na minha cela não existiam espelhos, apenas uma cama, um
chuveiro, uma retrete e uma cadeira. Nunca percebi inteiramente como se
conjugava a cadeira naquele cenário, nas dei-lhe bom uso, passando várias horas
aí sentado.
No trigésimo nono dia do vigésimo quarto
ano do meu aprisionamento algo de estranho aconteceu. O diálogo que mantinha
com o meu companheiro de condenação sofreu um revés inesperado. Sem que
estivesse preparado e a hora incerta as seguintes palavras foram proferidas (de
tal forma que ecoaram pelas paredes de pedra): “Tem uma visita”. Perante tal
afirmação fiquei sem reação. Levantei-me da cadeira e penteei-me, apesar de não
ter como saber se estaria penteado ou não. Ali fiquei em pé, especado à espera.
A porta abre num chiar desconcertado,
rangendo sobre as dobradiças e as diversas camadas de ferrugem acumuladas ao
longo dos tempos. A porta desvia-se do caminho e uma sombra surge logo em
seguida.
Uma rapariga jovem, bonita, muito bem
arranjada e com uma postura que transparecia ser possuidora de conhecimentos,
mas dotada de uma doçura inocente.
Sem dar um único passo olha na minha
direcção com um olhar terno e cheio de compaixão. Um olhar genuíno onde a pena
não era seu ingrediente.
Moveu os lábios e num som que julgava ser
etéreo disse-me: “Está livre”, acrescentando “A sua questão foi esclarecida e
tinha razão”.
Com isto volto a mim como se durante esta
cena tivesse entrado numa espécie de transe, mas era verdade encontrava-me em
liberdade.
Passados vinte e quatro anos proferi uma palavra:
“Obrigado” e formulei um pedido: “Se não se importa, quando sair fecha a porta
é que se está a formar uma corrente de ar”.
O mais engraçado é que já não me lembro da
questão.
Este comentário foi removido por um gestor do blogue.
ResponderEliminarPeço desculpa "certo ser", mas ao tentar responder removi o comentário. É falta de hábito em receber comentários neste espaço.
EliminarLembro-me das palavras e agradeço-as. E obrigado pelo erro detectado, por vezes passa algo na revisão.