Os lobos entraram na via da esquerda ultrapassando tudo e todos. Corriam desalmadamente. Corriam atrás das suas almas. Foram roubadas, estropiadas, arrancadas do seu corpo e largadas nos confins do mundo. O mundo anda às rodas e os confins vão-se afastando cada vez mais, mas os lobos circulam na via da esquerda tentando contrariar a entropia e gravidade. Entendiam a gravidade da situação, assim como a sua impressibilidade. Não poderiam descansar sem alma, não conseguiriam ter paz. A via da esquerda estava desimpedida, não circulava vivalma. Os lobos uivavam com tamanha dor, raiva, medo. Um cocktail emocional que foram forçados a tomar e que abria caminho. Caminho sem fim. Esperemos que a via da esquerda não termine.
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A mostrar mensagens de outubro, 2015
Uma Casa Cheia de Livros
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Os livros, esses animais sem pernas, mas com olhar, observam-nos mansos desde as prateleiras. Nós esquecemo-nos deles, habituamo-nos ao seu silêncio, mas eles não se esquecem de nós, não fazem uma pausa mínima na sua vigia, sentinelas até daquilo que não se vê. Desde as estantes ou pousados sem ordem sobre a mesa, os livros conseguem distinguir o que somos sem qualquer expressão porque eles sabem, eles existem sobretudo nesse nível transparente, nessa dimensão sussurrada. Os livros sabem mais do que nós mas, sem defesa, estão à nossa mercê. Podemos atirá-los à parede, podemos atirá-los ao ar, folhas a restolhar, ar, ar, e vê-los cair, duros e sérios, no chão. (...) Os livros, esses animais opacos por fora, essas donzelas. Os livros caem do céu, fazem grandes linhas rectas e, ao atingir o chão, explodem em silêncio. Tudo neles é absoluto, até as contradições em que tropeçam. E estão lá, aqui, a olhar-nos de todos os lados, a hipnotizar-nos por telepatia. Devemos-lhes ...