Olá Pai

Hoje é dia do meu pai.
O meu pai é o meu guarda-costas.
O meu pai faz com que me sinta invencível e intocável.
O meu pai ama a minha mãe, a mim e ao meu irmão.
E nós amamos o nosso pai.
O meu pai diz piadas secas.
O meu pai tem uma carequinha e uma barriguinha.
E diz-me que posso vir a ficar como ele, mas eu não me importo, porque estamos a falar do meu pai e quem não gostaria de ser como uma pessoa que lhe é significativa.
O meu pai conta boas histórias.
O meu pai é isto tudo e muito mais.
Se quando crescer conseguir ser nem que seja um terço do que o meu pai é, já me dou por satisfeito.
Digam lá, gostavam de ter um pai como o meu, não é verdade.

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Terra de semente inculta e bravia,
terra onde não há esteiros ou caminhos,
sob o sol minha vida se alonga e estremece.

Pai, nada podem teus olhos doces,

como nada puderam as estrelas
que me abrasam os olhos e as faces.

Escureceu-me a vista o mal de amor
e na doce fonte do meu sonho
outra fonte tremida se reflecte.

Depois... Pergunta a Deus porque me deram
o que me deram e porque depois
conheci a solidão do céu e da terra.

Olha, minha juventude foi um puro
botão que ficou por rebentar e perde
a sua doçura de seiva e de sangue.

O sol que cai e cai eternamente
cansou-se de a beijar... E o outono.
Pai, nada podem teus olhos doces.

Escutarei de noite as tuas palavras:
... menino, meu menino...

E na noite imensa
com as feridas de ambos seguirei.


"O Pai"
Pablo Neruda, in "Crepusculário"
Tradução de Rui Lage

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