A soma das somatizações
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A mostrar mensagens de outubro, 2013
Desencontro material
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Ele abre a boca e não sai nada, o discurso ficou preso no pensamento. Ela não vem, o nada ocupa o seu lugar na cama que nunca chegaram a partilhar. De tanto estar sozinho perdeu a habilidade de falar, regrediu à forma primal e apenas é capaz de emitir grunhidos. A espera prossegue, a porta encontra-se entreaberta para que nada a impeça de entrar. Ele vê mal e recusa-se a tirar os óculos, mesmo durante o sono. Tem receio de não a olhar. Ela tem olhos? Duas orelhas? Um nariz? Um sorriso? Ela existe! Ele apreendeu o cheio dela e bloqueou o olfacto. Já não cheira o mundo. Ela, o mundo. Ele não sai de si, tornou-se um hikikomori . Na rua pessoas passeiam, ela corre. Ouve tocar à porta fechada. Entreaberta apenas para ela. Não responde, é engano. A morada dela é na casa dele. A casa dele está vazia. Ela não aparece. Ele desaparece.
A escadaria que me imobilizou
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A estação estava deserta e esperava o comboio. Naquele momento apenas o meu corpo e as escadas rolantes funcionavam, o resto encontrava-se em suspenso. Assim permanecia o ambiente que me rodeava, até que, de repente, e sem qualquer aviso senti uma mudança no ar que até ai era solitário. Reparo que as escadas, num acto de mestria, começam num crescente aumento de velocidade. Percebi que se aproximava alguém. Em sentido descendente começa a surgir uma figura, a primeira impressão é marcada pelo seu calçado que percebi de imediato pertencer a um ser humano do sexo feminino. Gradualmente a imagem foi-se compondo, surgindo as pernas como prolongamento dos pés, seguindo-se das coxas, cintura, ventre, o tronco completava-se com o peito, sendo acompanhado pelos braços e por duas mãos de aparência suave. Por fim a morfologia completou-se com a aparição de uma cabeça ostentado um rosto de traços delicados e um conjunto de finos cabelos da cor do trigo maduro. Na presença do conjunto de linhas ...