Desencontro material

Ele abre a boca e não sai nada, o discurso ficou preso no pensamento.
Ela não vem, o nada ocupa o seu lugar na cama que nunca chegaram a partilhar.
De tanto estar sozinho perdeu a habilidade de falar, regrediu à forma primal e apenas é capaz de emitir grunhidos.
A espera prossegue, a porta encontra-se entreaberta para que nada a impeça de entrar.
Ele vê mal e recusa-se a tirar os óculos, mesmo durante o sono. Tem receio de não a olhar.
Ela tem olhos? Duas orelhas? Um nariz? Um sorriso? Ela existe!
Ele apreendeu o cheio dela e bloqueou o olfacto. Já não cheira o mundo.
Ela, o mundo.
Ele não sai de si, tornou-se um hikikomori.
Na rua pessoas passeiam, ela corre.
Ouve tocar à porta fechada. Entreaberta apenas para ela. Não responde, é engano.
A morada dela é na casa dele.
A casa dele está vazia.
Ela não aparece.
Ele desaparece.

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