Sobre a performance

Um mundo governado por certezas científicas chegaria ao excelso da extinção de todos e qualquer tipo de tabu. Julius chega a afirmar que os tabus sobrevivem hoje por mera vergonha. O público da performance artística (e social) acabou com o choque da transgressão nele mesmo porque essa resposta é hoje esperada em todas as obras performativas, arrisco-me a dizer, na arte em geral.
Esta é uma das razões principais e a primeira a apontar no termo e supressão da definição de transgressão como a temos vindo a enquadrar até aqui: a vulnerabilidade da arte saturou-a nela mesma. O espectador espera da obra de arte o condimento marginal e transgressivo que observou em outras obras, com igual relutância. A obra de arte (artes plásticas, pintura) tem a capacidade de provocar mas a sua existência é frágil e a sua passividade torna-a fraca. Aqui, a performance é caracterizada pelo contrário, é fugaz e activa, maioritariamente política, mas sucede que existe uma sobrelotação da performance em todo o mundo: a exacerbada existência desta modalidade tornou-a débil e sem a intensidade que a caracterizava. É-lhe permitida quase toda e qualquer violação das normas sociais porque não irá alterar o decurso dos acontecimentos, a massa da sociedade está habituada a protestos e objecções, aguarda com menos surpresa um comportamento transgressivo que um comportamento moral e eticamente solidário. Neste argumento, baseia-se outras da premissas para o óbito da transgressão como a conhecemos: a desmoralização do público.


Excerto da dissertação de Luís Tiago Oliveira (2014) intitulado "O fim da transgressão na performance social e artística".

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