Tosta & Ucal

Acordei. Tudo indicava que iria ser um dia como tantos outros. Normal. Nada de especial era esperado que sucedesse nesse dia. Vou tomar o pequeno-almoço, apetecia-me uma tosta e fui buscar a tostadeira e para acompanhar decidi agitar um Ucal. Tomei-o em frente à televisão mas cedo comecei a sentir o cérebro a amolecer, por isso, acabei de comer e dirigi-me à casa de banho. Ia tomar um banho para despertar a preguiça.

Era dia de semana o que significa que o prédio que habito estaria a meio gás no que diz respeito a ocupantes. A esta hora dominava o silêncio. No meio deste silêncio apenas ouvia a água do meu banho a correr. E de repente, apercebo-me de algo. O silêncio havia sido quebrado. De repente a casa de banho tornara-se um amplificador para um espectáculo sonoro que me aterrorizou. Sem aviso prévio começo a ouvir várias vozes, destacando-se uma voz que chorava intensamente, uma voz que proferia gritos primais e uma voz, feminina, que entoava uma canção. Este cântico soava a algo tão irreal, eram versos proferidos em repetição, sempre com a mesma entoação e o mesmo registo vocal. Estas vozes misturavam-se numa amálgama alucinatória.

No meio do meu banho, no meio deste cenário auditivo parei a perscrutar o que se passava, o que era aquilo, será que estaria a imaginar? Seria um delírio? Ou aquilo era verdade? A verdade é que eu sentia aqueles sons, aqueles ruídos a fazerem ressonância pelo meu corpo molhado e percebi que o arrepio que sentia não era pelo frio.

Mas de um momento para o outro tudo acalmou e eu acabei o meu banho.

Hoje era dia de ficar por casa. Apenas iria sair ao fim da tarde e isso fez com que aquele episódio permanecesse vivido nos meus ouvidos e questionava-me sobre o que se teria passado ou o que se estaria a passar naquele apartamento – isto se aquilo tivesse acontecido num apartamento.

Com o andar do dia o sentimento de estranheza foi diminuindo e depressa passou o tempo. À hora que estava previsto sair, preparo-me e dirijo-me para a porta.

Abro a porta.

À minha frente uma figura.

Nunca tinha visto algo assim.

À minha frente vejo uma mulher, de tom escuro, com vestes tribais e com uma máscara a tapar o rosto, deixando espaço para presenciar os seus olhos onde as pupilas eram do mais negro e a íris de um vermelho intenso.

Perante tal imagem o meu corpo estremeceu. Fiquei horrorizado. Tentei gritar, mas a boca não foi capaz de emitir qualquer tipo de som. Fiquei petrificado. Não me conseguia mexer, enquanto a mulher fixou em mim mexendo-se de uma forma articulada, como se fosse uma marioneta.

Consegui voltar a mim, apenas para fechar a porta.


Desde esse momento, estou em casa. Fechei-me cá dentro. Nunca mais saí, nem sequer me consigo aproximar da porta, nem olhá-la, pois sei, no meu âmago, que ela continua ali, a olhar-me. 

Comentários

  1. Gostei muito. é algo kafkiano...
    E os efeitos alucinogénicos do Ucal são bem conhecidos... ;)

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    1. Muito obrigado.
      E o Ucal é viciante, hoje voltei a beber um.

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