Alucinação em sedimentos
Ele
alucinava nas horas vagas. Afinal tinha que arranjar algo com que se entreter
quando não tinha que fazer. Nunca estava aborrecido. Os seus fantasmas
faziam-lhe companhia. Como eram variados. Um deles consistia num rabo com asas
que frequentemente sobrevoava o espaço aéreo dele e defecava-lhe em cima da
cabeça. Era costume vê-lo de chapéu-de-chuva aberto, mesmo durante o verão. As pessoas
achavam estranho aquele comportamento, mas não era ele que iria andar todo
cagado.
Ele
alucinava com diversas coisas, algumas totalmente desconectas como é o caso de
ver dejectos a saltar à corda. Ele alucinava muito com cocó. Ele é muito
organizado, dir-se-ia até obsessivamente organizado.
Dava-se
bem com as suas alucinações, já se tinha habituado a elas e vendo bem não lhe
causavam grande transtorno. Como mantinha uma boa relação com elas decidiu que
todas as pessoas deveriam disfrutar delas, assim nunca mais iria ouvir que
fulano tal estava sozinho. Ele iria erradicar a solidão! E não o iria fazer
sozinho, tinha os seus companheiros. Decidiu marcar uma reunião com as suas alucinações,
queria contar-lhes o seu magnífico plano. Estava bastante entusiasmado, mas não
se achava uma tarefa fácil juntá-las todas no mesmo lugar, por isso enviou
cartas a cada uma delas a explicar a sua brilhante ideia. Escreveu ao cú
voador, às fezes que saltam à corda, entre outras.
Passados
alguns dias, começou a ver que as suas notificações tinham surtido efeito. Começou
a ver mais rabos alados a defecar em cima das pessoas e as fezes saltitantes a
acompanhar os passos das pessoas e a brincar nos parques infantis com as outras
crianças. Ficou estasiado. A alegria tomou-o por completo. Ficou tão feliz que
começou a rodopiar e de tanto rodar chocou contra um poste. Caiu redondo no
chão e perdeu os sentidos.
Depois
disso lembra-se de acordar no hospital. Do comprimido. Já não via as
multiplicações dos seus companheiros. Tinha sido um delírio ouviu entredentes. Mas
ele não acreditava. Sabia que por breves instantes acabou com a solidão, que
naqueles momentos ninguém esteve sozinho.
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