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A mostrar mensagens de março, 2015

Depósito de bagagem

Tinha desistido do amor! Não posso ser dramático a esse ponto. A verdade é que a minha relação com o amor equivalia àquilo que na física se denomina por sistema fechado. Eu dava (ou queria dar), mas não recebia (positivamente). Como assim andava o amor, decidi que seria melhor que o pusesse em pausa para ponderar o que fazer a seguir. Tinha chegado à estação de comboios do Rossio e reparo que num canto encontram-se uma série de cacifos, aproximo-me para vê-los melhor e leio na inscrição "Depósito de bagagens". Era exatamente isto que procurava, sem hesitar abro um dos cacifos e depositei o meu amor lá dentro. Coloquei o meu amor em espera. Tinha-se tornado um fardo que não conseguia suportar (mas nem por isso me sentia aliviado). Fechei a porta e paguei a quantia respondente a uma embalagem pequena (assim andava o meu amor). Inseri três euros que me assegurava um aluguer para um período de vinte e quatro horas. Um pequeno custo para um falso alívio. Daí em diante, todos os...
As palavras revestem-se de cor quando escrevo para ti.

Dia

Andava e o dia passava Corria e o dia acelerava Parava e o dia troçava Dizia que o dia era para mim inalcançável Não me rendi Peguei numa caneta Numa folha branca e disse para comigo “Dia, vou-te apanhar!” Precipitei-me a escrever “dia” Queria ganhá-lo Olhei para as letras Estas estavam desencontradas Não continham um D Nem um I Mas havia um A, na verdade dois E um N Surgiu algo diferente, inesperado Algo me tinha alcançado Li a palavra Ana E nela vi a minha vida

Ninguém à vista

- Quem morreu? - Ninguém. - Então porque estas com cara de enterro? - Ninguém morreu! - Já percebi, ninguém morreu. Houve funeral? - Sim. - Quem foi? - Ninguém. - Outra vez com o ninguém! - Ninguém foi ao funeral. - Como é que ninguém pode ir ao funeral se ninguém morreu? - Simples. O funeral era de ninguém, por isso ninguém morreu. Ninguém queria ir ao seu funeral, por isso ninguém morreu. - Mas como ninguém pode ir ao seu funeral se morreu? - Ninguém morreu. Ninguém foi ao funeral. - Não entendo. E então como ficamos? - Aqui. - Aqui? - Sim, aqui estamos bem.