Nuvole Bianche
Ela entrou no
carro e não disse nada. Virei-me para ela e disse “Saímos já”. Ela apenas
lançou-me um breve sorriso e acenou ligeiramente. Enquadrou as suas costas com
o banco e aí permaneceu, calma e tranquilamente. Vestia um dos seus vestidos
ligeiros, ornamentado por flores que pareciam flutuar após uma leve brisa as
ter levantado do chão. Olhava-a pelo espelho retrovisor, sentada quase sem
fazer peso sobre o acento, dotada de uma ligeireza que até às penas fazia
inveja. Ela sentada no banco de trás e eu no da frente, era eu que conduzia o
veículo. Dou à chave, coloco a primeira, destravo e carro e sigo caminho. Não
pergunto para onde vamos, sei exatamente. Ela não me disse qual o destino, mas
sabia para onde tinha que a dirigir. A viagem segue e nós seguimos com ela e
com o silêncio. Silêncio puro, sem constrangimentos, vergonhas ou
incompetências linguísticas. Apenas silêncio. Tão cristalino que me sentia a
conduzir por águas translúcidas. Tal como os seus olhos que durante a viagem
perscrutavam a paisagem que permanecia para lá da janela fechada. Afigurava-se
o ponto de chegada, já longe ia o ponto de partida. E muitas foram as pontes.
Perto da porta começo a abrandar, voltando à primeira, a travar o carro e a
desligar o motor. Olho-a uma última vez. Sirvo-me do retrovisor, novamente. Ela
olha-me nos olhos espelhados e volta a aligeirar um sorriso. Com esse sorriso sinto
o seu agradecimento. Precipita-se para o manípulo da porta, com delicadeza
desfecha a porta e sai para entrar na porta azul. Eu sei para onde íamos, sei
onde estamos. Sei onde ela vai. Sei o que vai fazer. Eu fico sentado.
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