Com o mesmo olhar, contou-me das doenças que mataram as escravas que tinha levado e, sorrindo, contou-me de como tinha ouvido o meu nome pronunciado em muitos países. Falou-me do país onde os homens vendiam livros em canoas numa lagoa maior que dez cidades, disse-me que percebeu que o meu nome estava escrito num dos livros. Falou-me de um velho e desdentado vendedor de livros numa canoa, a pronunciar o meu nome no meio de uma língua indecifrável. O príncipe de calicatri sabia dizer obrigado em mais de noventa idiomas; sabia dizer o meu nome é príncipe de calicatri em mais de cinquenta idiomas; mas não sabia ler, nem sabia escrever. E repetiu o meu nome na voz daquele velho. Falou-me depois do país onde as mãe liam os meus livros aos filhos, disse-me que as palavras que eu inventava eram as primeiras palavras que aquelas crianças aprendiam. Falou-me depois do país onde os meus livros eram queimados, onde os guardas perseguiam as pessoas que escondiam os meus livros dentro de caixas de sapatos, dentro dos forros dos casacos, dentro dos fundos falsos das malas. E disse que eu não imaginava a importância das minhas palavras no mundo. Eu, rodeado de silêncio, disse-lhe que não havia palavras que me pertencessem.
José Luís Peixoto, Uma Casa na Escuridão
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