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A mostrar mensagens de setembro, 2015
Não vi o eclipse da lua, esteve gigante e vermelha não é verdade? Vi-a hoje. Enorme, brilhante, pura. Olhei na sua direção com muita atenção enquanto caminhava. Esperava ver algo a mexer, fumo a sair de uma qualquer chaminé lunar, mas nada... Tudo quieto lá e tudo tão inquieto cá. Inquietude que nos principia, estimula, anseia. Parecemos um iogurte líquido em constante agitação. Será que além da terra existe inquietude? Será que cantam a inquietação? De que cor é a lua? Cinzenta? Mas porque me parece tão branca. Lembra-me uma bola de neve que hoje rolou para perto. Parecia tomar o tamanho de planeta. Olhei-a, mas desisti. O que procurava não estava na vertical, mas sim na horizontalidade do meu olhar. Baixei o olhar do luar e encontrei um universo - cheio de planetas, luas, galáxias, constelações. Um universo no teu olhar.

Nevoeiro

A extinção da vida na terra será causada por um nevoeiro. Um espesso nevoeiro branco abater-se-á sobre tudo e o silêncio irá reinar. Extinção pela pureza. Talvez nem seja toda a vida a desaparecer, algumas espécies poderão sobreviver servindo-se da selecção natural. Porventura serão capazes de se adaptar, conseguirão desenvolver os mecanismos necessários. As espécies que se servem de outros sentidos, para além da visão, estarão em vantagem. O mal do ser humano é ter dado primazia à visão. A visão vê o bonito e o feio, reconhece-os, mas não é o suficiente para a pureza. A pureza necessita de um sentir total. O nevoeiro é puro porque não é palpável, mas deixa marca, é sensível e afeta os nossos sentidos. A instalação do nevoeiro não provocará o caos. Aparecerá, apenas. Ninguém dará por si. Uma bela manhã. Nevoeiro. Fim.

Saudade

Amor escrevo-te. Escrevo-te ao lado do nosso desenho. Escrevo as saudades. Tento escrever as saudades. Tenho tantas que as palavras se esgotam antes que chegue a meio. Só não sinto a necessidade de escrever as saudades quando estou contigo. Por mim estava sempre contigo. Por nós também. E se enjoasse bebia uma água das pedras, fazia uma careta e dizia: “Estou a brincar, não me enjoo de estar contigo”. Gostava de escrever a saudade contigo a meu lado. A espreitares enquanto te dizia: “Não olhes!” Nem isso nem nada te impediria de olhar. Olhar com um sorriso maroto. Na tua marotice perguntavas: “O que escreves?”. “Saudades do meu amor” respondia-te, entrando na tua marotice pouco subtil. “Tens saudades do teu amor?”, dizias fixando-te em mim. “Escreves saudades minhas?” Levantava os olhos da folha, pousava a caneta – o que escrevo para ti é permanente – e beijava-te, seguido de um sorriso sim. A saudade, nesse momento, ficava em suspenso, como tudo fica, todo o infinito em s...

Grupo de teatro nada

onde nada é vivido agraciado acarinhado sentido conquistado representado onde nada é tudo

Simpatias ocultas

Eu estou tresloucado, bem percebo. No entretanto, se fosse meu intuito tentar justificar-me, eu diria que é facto inegável que uma infinidade de simpatias  das coisas pelas coisas, mesmo entre aquelas que habitualmente consideramos de todo inanimadas, se revela já à nossa compreensão, posto que de uma maneira incompleta; a amplificação a que me arrojo não é pois tão disparatada, como à primeira vista parecia. O que é a lei universal da atracção? E a atracção eléctrica e a atracção magnética? E a cristalização de certos corpos? E o que são as afinidades químicas?... Mas não multipliquemos os exemplos, o que seria tarefa interminável. O que se está adivinhando é uma tendência universal para a escolha, para a preferência, para a selecção; o amor, na acepção amplíssima da palavra, regendo o mundo inteiro!... Admitindo agora que o espírito do indivíduo humano, quando em liberdade de acção pela morte do indivíduo ou por outras causas, não constitua uma excepção a esta regra de tendênci...