Simpatias ocultas

Eu estou tresloucado, bem percebo. No entretanto, se fosse meu intuito tentar justificar-me, eu diria que é facto inegável que uma infinidade de simpatias das coisas pelas coisas, mesmo entre aquelas que habitualmente consideramos de todo inanimadas, se revela já à nossa compreensão, posto que de uma maneira incompleta; a amplificação a que me arrojo não é pois tão disparatada, como à primeira vista parecia. O que é a lei universal da atracção? E a atracção eléctrica e a atracção magnética? E a cristalização de certos corpos? E o que são as afinidades químicas?... Mas não multipliquemos os exemplos, o que seria tarefa interminável. O que se está adivinhando é uma tendência universal para a escolha, para a preferência, para a selecção; o amor, na acepção amplíssima da palavra, regendo o mundo inteiro!...

Admitindo agora que o espírito do indivíduo humano, quando em liberdade de acção pela morte do indivíduo ou por outras causas, não constitua uma excepção a esta regra de tendências e seja divisível até ao átomo, aqui temo o ar ambiente povoado de uma inconcebível multidão de simpatias, invisíveis todavia, cruzando-se em todos os sentidos, procurando-se, atraindo-se, afastando-se, talvez mesmo perseguindo-se, atacando-se; e indo finalmente, umas e outras, pouco a pouco, encontrando o meio próprio e fixando-se por algum tempo. Inúmeros fenómenos de ordem psíquica, senão todos, encontrariam explicação plausível no estudo dos movimentos combinados destes micróbios afectivos, se assim posso exprimir-me, os quais escapam todavia à observação microscópica dos sábios... As causas das nossas preferências, as causas da nossa estima por determinados indivíduos, as causas do nosso amor por um único indivíduo, ficariam reduzidas a simples combinações de simpatias, nascidas de hoje; nascidas de ontem, ou herdadas de existências vividas há mil anos, ou há dez mil anos, ou ainda muito mais longe nos tempos...

Teimando na ordem de ideias a que venho de referir-me mui de leve e cingindo-me à intenção especial que presidiu à confecção deste ligeiro artigo e de outros artigos anteriores, talvez possa eu dizer, sem me afastar muito da verdade: - Porque penso eu tanto em Ko-Haru, depois da sua morte?... Porque penso eu tanto em O-Yoné, depois da sua morte?... É porque, dos seus dois espíritos volatilizados, algumas simpatias vieram pousar sobre o meu ser, vivem comigo, encontram-se em constantes relações de afecto com o meu espiríto; do que resultam para mim certas manifestações de um estado de alma, às quais chamo, em linguagem comum e imprecisa: - saudades.

Wenceslau de Moraes, Meditações (2009)

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