Arrepios de um corvo na tabacaria

– O Sangue de Monstro! Está a crescer outra vez! – Evan Ross fitou a palpitante matéria viscosa e verde no caminho da garagem de sua casa. Parecia um enorme chumaço de pastilha elástica verde e pegajosa e era maior do que uma bola de praia. Maior do que duas bolas de praia!
A mancha verde estremeceu e agitou-se como se estivesse com dificuldades em respirar. Produzia nojentos sons de sução. Depois, começou a saltitar.
Evan deu um passo para trás.
«Como teria a coisa pegajosa saído da sua lata?» perguntou-se. «Quem a teria deixado no caminho da garagem? Quem teria aberto a lata?»
Evan sabia que mal o Sangue de Monstro começasse a crescer, ninguém o poderia parar. Iria crescer, crescer e sugar tudo o que encontrasse pelo caminho.
Evan sabia-o por experiência própria e dolorosa.
Vira uma massa gigante de Sangue de Monstro engolir vários miúdos de uma só vez. E também estava presente quando o seu cão, Latido, comera o Sangue de Monstro. O cocker spaniel crescera, crescera, crescera… até ficar suficientemente grande para agarrar Evan entre os dentes e o enterrar no quintal!
Uma pequena porção de Sangue de Monstro transformara Miminho, o pequeno hamster da aula de Evan, num monstro raivoso e que rosnava furiosamente. O hamster gigante – maior do que um gorila – rugira pela escola, destruindo tudo no seu caminho!
«Esta argamassa é perigosa», pensou Evan. «É bem capas de ser a coisa viscosa e verde mais perigosa à face da Terra!»
Como teria chegado até ali ao caminho a garagem da casa de Evan?
E que iria ele fazer quanto a isso?
O Sangue de Monstro pôs-se aos pulos e deu um soluço. Produziu mais sons nojentos de sução.
Enquanto saltava, ia apanhando pauzinhos e cascalho pelo caminho. Ficavam junto de si por momentos antes de serem sugados para o centro da bola húmida e gigante.
Evan deu outro passo para trás quando a bola começou a rolar lentamente.
– Oh, nããão! – Um gemido surdo escapou-lhe da garganta. – Por favor, nããão.
O Sangue de Monstro rolou pelo arruamento em direção a Evan, ganhando velocidade à medida que se deslocava. Evan deixara ficar um dos seus patins em linha junto à casa. A coisa verde engoliu-o com um sonoro chloooomp.
Evan engoliu em seco quando viu o patim desaparecer nas profundidades da saltitante bola verde.
– A seguir é a minha vez – gaguejou em voz alta.
«Nem pensar!», disse para consigo. «Vou sair daqui e é já.»
Virou-se para começar a correr e tropeçou no outro patim.
– Ai! – gritou ao cair com toda a força sobre os braços e joelhos. Aterrara com os cotovelos.
Sacudiu a sensação de choque elétrico e pôs-se de pé atabalhoadamente. Virou-se a tempo de ver a matéria disforma que espumava e rolava na sua direção.
Abriu a boca para gritar. Mas o grito morreu-lhe na garganta enquanto a matéria verde e densa lhe salpicava a cara.
Agitou energeticamente os braços. Pôs-se aos pontapés. Mas a coisa pegajosa enrolou-se em volta dele. Sugando-o. Sugando-o para o seu interior.
– Não… não consigo respirar! – murmurou.
E depois, tudo ficou verde

E eu acordei
Numa meia-noite agreste, quando eu lia, lento e triste,
Vagos, curiosos tomos de ciências ancestrais,
E já quase adormecia, ouvi o que parecia
O som de alguém que batia levemente a meus umbrais.
"Uma visita", eu me disse, "está batendo a meus umbrais.
É só isto, e nada mais."

Para dentro então volvendo, toda a alma em mim ardendo,
Não tardou que ouvisse novo som batendo mais e mais.
"Por certo", disse eu, "aquela bulha é na minha janela.
Vamos ver o que está nela, e o que são estes sinais."
Meu coração se distraía pesquisando estes sinais.
"É o vento, e nada mais."

Abri então a vidraça, e eis que, com muita negaça,
Vi a Tabacaria
Da janela do meu quarto, 
Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é 
Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente, 
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos, 
Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa, 

Estou hoje perplexo como quem pensou e achou e esqueceu. 
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo 
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora, 
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro. 

(Come chocolates, pequena; 
Come chocolates!
Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates. 
Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria. 
Come, pequena suja, come! 
Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!)

Mas um homem entrou na Tabacaria, 
E a realidade plausível cai de repente em cima de mim. 
Semiergo-me enérgico, convencido, humano, 
E vou tencionar escrever estes versos em que digo o contrário. 

Visto isto, levanto-me da cadeira. Vou à janela. 
O homem saiu da Tabacaria.
Ah, conheço-o: é o Esteves. 
(O dono da Tabacaria chegou à porta.)
Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me. 
Acenou-me adeus gritei-lhe Adeus ó Esteves!, e o universo 
Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o dono da Tabacaria sorriu. 


Excertos de:
Arrepios - Sangue de Monstro III, R. L. Stine
O Corvo - Edgar Allan Poe (trad. Fernando Pessoa)
A Tabacaria - Álvaro de Campos

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