Lenda d'Ela
Hoje sou eu que te
vou contar uma estória.
Vou-te falar sobre
a “Lenda d’Ela”. Conheces?
Sabes porque têm
raízes, as árvores?
São para crescer e
alimentar? Sim, mas não só.
Existe uma outra
razão. O que te tenho a contar é como o vento, ninguém consegue precisar onde
ou quem a começou. É uma estória milenar que tem circulado pelo mundo. É sobre
uma árvore. Há quem diga que se trata da árvore mais antiga do mundo e que foi
nela que se iniciou esta lenda.
Já não me recordo
onde ouvi esta história pela primeira vez, tenho a impressão de já ter nascido
com ela. O mesmo passa-se com pessoas que conheço, é como se viesse codificada
no nosso ADN. Vou passar a contá-la:
Lenda
d’Ela
Era uma vez uma
árvore. Uma árvore muito velha e muito grande. Corria um rumor de que se
tratava da árvore mais antiga do mundo, que quando o mundo foi criado essa
árvore foi o seu primeiro rebento.
Não é possível
confirmar este rumor, mas há pessoas que afirmam tê-la visto e que é tremenda,
com um tronco da grossura de um prédio de betão e folhas do tamanho de cavalos.
Essa árvore
encontrar-se-á num local de difícil acesso, mas há quem afirma ter conseguido
lá chegar e confirma a sua grandiosidade. Todos esses relatos referem que nessa
árvore encontra-se esta inscrição:
As raízes vão crescer
Até ela aparecer
Com olhos da cor da floresta
Ninguém sabe quem
é o autor, como é que surgiu ou o que significa. Teorias foram criadas e
debatidas, mas sem chegar a qualquer solução. Com o passar dos anos muitos
tentaram decifrar o enigma, mas sem sucesso. Este insucesso promoveu o
esquecimento.
Eu sou muito
jovem, nunca vi tal árvore, nem sei se será verdade, apenas sei que deste muito
novo que sinto que a conheço.
Em pequeno ficava
encantado com essa estória, mas fui crescendo e esquecendo. Podes-me perguntar
o porquê, o que me faz lembrar dela, agora. A razão pelo qual me lembrei foi
ter-te conhecido.
Vou-me explicar
melhor.
Já fez dois anos
que nos conhecemos e pouco tempo depois do nosso primeiro contacto
enamorámo-nos um pelo outro. Desde essa altura – que me apaixonei por ti –
tenho tido recordações que me remetem para esta estória. Fiquei surpreendido
por ainda ter memória dela, mas não liguei muito.
Com o passar do
tempo, quanto mais estava contigo mais lembranças ia tendo, aos poucos
tornava-se mais vivida, como se a tivesse ouvido recentemente. Dadas estas
insistências comecei a pensar ao que se devia, no porquê de estar a recordar
este momento do meu passado.
Fui juntando as
peças, como num puzzle, mas não chegava a alguma conclusão. Tentei perceber em
que momentos esses flashbacks surgiam
e apercebi-me que eram mais recorrente após ter estado contigo. Questionei-me
sobre se seria apenas uma coincidência. Fiz um esforço para me lembrar do que
diziam estar inscrito na árvore e recitei-o em voz alta:
As
raízes vão crescer
Até ela aparecer
Com olhos da cor da floresta
Enquanto acabava
de recitar o poema lembrei-me do nome da estória. Lenda d’Ela.
Lenda d’Ela.
Ela.
Tu.
Tu és ela?
Nesse momento
chegaste perto de mim e instantaneamente a minha atenção fixou os teus olhos.
Verdes e
castanhos.
Os teus olhos são
da cor da floresta!
Tu és a rapariga
da lenda. Não há dúvida.
Tu és Ela!
Isso aconteceu
agora, momentos antes de ter começado a contar a estória. A estória que não
conhecias e que é sobre ti.
Sabes qual é o
nosso próximo passo? Encontrar a árvore.
Os
jovens apaixonados partiram em busca da árvore. Caminharam meio mundo e quando
se preparavam para percorrer o resto do mundo, encontraram-na.
Perceberam
logo que era a árvore que procuravam. Era imponente. Fazia sombra ao maior dos
gigantes.
Os
jovens estavam mais velhos, mais conscientes do mundo.
Continuavam
juntos, como no primeiro dia.
Aproximaram-se
da inscrição e num ato contínuo Ela colocou a sua mão sob o relevo das
palavras. Uma reação. A terra começou a tremer. Por debaixo das palavras
surgiram outras. O tremor passou, mas os seus efeitos eram visíveis.
Uma
nova inscrição surgiu:
Deambulo sem razão
Na esperança de o encontrar
Com o olhar que afasta a escuridão
Em
silêncio fixaram estas palavras novas. Não as questionaram, não as estranharam.
Olharam-se. Faziam sentido.
As
palavras eram para eles. O seu amor estava enraizado desde o início dos tempos
e será para sempre, pois aquela árvore continuar a existir e a crescer.
A
lenda conhecida por “Lenda d’Ela” mudou de nome.
Agora
é conhecida como a “Lenda d’Eles”.
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