Ela
Ele chorava a morte dela. Um repentino ataque, vindo de
parte incerta havia acertado em cheio no seu coração e ela pareceu. E com ela
uma parte dele pareceu, uma parte que não iria mais recuperar, pois ele tinha
perdido a capacidade de regeneração, tinha desaparecido com ela. Ele lamentava
a morte, lamentava a vida e tudo o que se encontrava pelo meio. O mundo
escurecia, a noite predominava no dia e o fim já tinha passado de prazo. A
passividade passava a fazer a sua rotina e o entorpecimento era o seu alimento.
Ela fazia-lhe falta. Faltava-lhe um pedaço, a alma. Os sentidos que sentia eram
de vazio. Amaldiçoava o tempo e o espaço, esses conceitos subjectivos que foram
objectivos quando atuaram sobre ela. Quando a fizeram abandonar o mundo cedo de
mais. Não houve pré-aviso, eles não disseram nada, limitaram-se a vir buscá-la
e ela nem pode reagir, não se pode defender. Indefesa foi levada deste mundo e
levou consigo o mundo dele. Ele olhava-a deitada, branca como o cal, vestida
com o seu vestido preferido, de olhos frios e fugidos. A morgue arrefeceu o seu
sangue e ele congelado pelo horror de a ter perdido respirava sem vontade.
Estava a dizer um último adeus, vê-la uma última vez, antes do processo de
congelamento perpétuo na terra. Ele fechou os olhos, queria preservar a sua
imagem, prende-la para sempre no seu consciente, subconsciente e inconsciente,
todas as instâncias da sua mente deveriam guardar o seu sorriso. Sabia que
quando abrisse os olhos iria vê-la deitada, não na minha cama, mas sim numa
maca fria e metálica. Abro os olhos e vejo os olhos dela. Estavam abertos.
Olhavam para mim. Os seus olhos claros estavam abertos e olhavam-me com todo o
seu esplendor. Estaria a delirar, não podia ser verdade, ela tinha morrido, os
olhos deviam estar sem vida, mas no entanto transbordavam de vida. Abri e fechei
os olhos múltiplas vezes e os dela permaneciam abertos e num ato contínuo,
suspirou, moveu os lábios e sussurrou “Amor!”. Falou. Ela falou. Todo eu
tremia. Tinha medo do que estava a acontecer, estaria a enlouquecer, sentia
demasiado a falta dela que via coisas impossíveis. Impossível pensava eu. Ela
pestanejou, voltou a suspirar e desta vez com um sorriso rasgado sussurrou
“Amor! Sou eu.”. Era ela, ela estava viva, mas não podia ser, ainda há um
momento isso era um sonho impossível. Estaria eu a sonhar? Avancei para lhe
tocar, ela sorria com alguma dificuldade e respirava sofregamente. Cheguei
perto dela e sentia calor, toquei-lhe e senti calor. Calor. Ela não poderia
estar morta se eu sentir calor. Não conseguia acreditar, o que estava a
acontecer? Não conseguia falar, as palavras estavam tão espantadas quanto eu.
Movi os lábios e apenas consegui articular uma palavra em forma de questão
“Amor?”. Ela abre ainda mais o seu sorriso e responde “Sim!”. “Amor!”. “Sim!”.
Era a sua voz. Era o seu sorriso. Os seus olhos. Era ela e estava viva! “Como?”
perguntei eu e vi no rosto dela a resposta, também não sabia. Estava tão
surpresa quanto eu. Ela não conseguia grandes movimentos, estava morta à certa
de vinte e quatro horas e o seu corpo começava a deixar de responder. Agora
reanimado, aos poucos ganhava balanço para retomar a actividade. Ajudei-a a
sentar-se e ela continuava a sorrir e dei conta que também sorria, sempre fora
um ato contínuo ao sorriso dela. Não sabia o que fazer, não sabia se deveria
chamar alguém, dizer seja o que for, estava prestes a falar-lhe quando ela me
diz “Podemos ir jantar?” e aí não aguento e começo a chorar. A última coisa que
fizemos juntos foi jantar e não o conseguimos terminar. Ela manteve a pergunta
e o sorriso no rosto. Olhei-a e respondi “Sim, vamos jantar.”. Ajudei-a a
levantar-se e caminhamos, lado-a-lado, saindo da morgue e dirigindo-nos até ao
carro que tinha estacionado na garagem. Ajudei-a a entrar e a colocar o cinto.
Entrei e liguei o carro. Conduzi até ao restaurante onde tínhamos estado no dia
anterior, entramos e ela apontou para o nosso último momento juntos, a nossa
mesa. Os empregados e restantes clientes ficaram a olhar para nós sem perceber
o que se estava a passar. Encaminhei-a para a mesa e sentamo-nos. Perante esta
realidade extraordinária os restantes elementos do restaurante não tiveram
outra hipótese senão agir normalmente. Fomos servidos e pedimos os mesmos
pratos e durante o novo jantar não lhe larguei o pulso. Os batimentos do seu
pulso. Comemos, cada um com a mão que tinha livre e jantamos juntos. Não
trocamos nenhuma palavra. Não era necessário. Eu sabia o que ia acontecer a
seguir. O jantar terminou e ela continuava a sorrir. Era linda. Ela apertou-me
a mão, fixou o seu olhar em mim e disse “Obrigada!”. Eu tentava
desesperadamente conter as lágrimas. Ela sorriu, olhou os meus olhos e em
seguida fechou lentamente os seus. Ao ver isto, fechei os meus. Já tinha
resultado uma vez, nada me garantia que não iria resultar uma segunda vez.
Fechei os meus olhos com força, segurei a mão dela com força. Abri lentamente
os meus olhos e vi que os olhos dela continuavam fechados. Deixei de sentir os
batimentos no seu pulso. Desta vez era a sério. Ela morreu. Ela tinha voltado
uma última vez. Voltou para podermos terminar o que tínhamos começado, terminar
o nosso jantar abruptamente interrompido. Assim poderia descansar. E
mostrava-me que poderia descansar. Sabendo que ela estará sempre comigo, a
jantar comigo.
(Texto por editar. Baseado num sonho)
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