Senti alguém a bater às portas do meu coração
Encontrava-me
sentado no velho sofá da casa sem alicerce. O mundo era cinzento, tóxico
dependente de mágoas e tristezas. Estava para ali deixado, acabado, sem ninguém
que me acudisse. Sozinho com o mundo. De repente ouvi baterem à porta e o meu
rosto coberto de pó moveu-se fazendo-o pairar no ar até assentar novamente. As
minhas articulações rangiam, achavam-se emperradas por não lhes ser dada
atenção. Virei e olhei primeiro à esquerda e depois à direita. Repeti estes
movimentos duas vezes para me certificar, mas a realidade é que não existia
nenhuma porta nas proximidades. Delirava. Pensei que a partir daquele momento
era feito de pó e delírios. Voltava ao passivo quando vindo do nada voltei a
ouvir o bater, não podia ser um delírio, aquele toque tinha o som da verdade.
Voltaram a bater e continuava sem perceber a sua localização. Voltaram a bater,
desta vez com mais veemência, como que gritando “estou aqui” e foi aí que vi,
que senti. O som vinha do meu peito, o meu coração voltava a bater. Eras tu. Tu
batias às portas do meu coração.
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