Quando ela dormiu pela primeira vez na minha cama. Nunca hei-de esquecer esse dia. Deixe de ter uma cama, passei a ter a nossa cama que nos embala e protege dos monstros que vivem no armário e debaixo da cama. Eu tinha medo, dormia sozinho num espaço frio a habitado por sombras. Ela chegou e varreu, mandou-as para debaixo do tapete como se faz com o pó que não queremos que fique a flutuar no ar. Ela limpou o meu quarto, tornou-o habitável. Ela veio salvar-me. Perguntei como lhe podia agradecer e ela disse num tom suave “tenho sono”. Dei-lhe a minha cama. Preparava para me deitar no chão, mas continuava com medo, medo irracional. Invisual. Acanhado perguntei-lhe se podia deitar-me na cama e ela respondeu-me com um sorriso. Deitei e encostei-me à beira dela, não a queria incomodar. Minha salvadora. Com o édredon – o manto protetor – fechei os olhos para afastar o medo e senti algo quente. Ela aproximou-se de mim. Pressionou o seu corpo de encontro ao meu. Aqueceu-o. Afastou os últimos monstros, os que habitavam a minha alma. Pela primeira vez sentia o calor. O corpo dela no meu. A proteger-me, a aquecer-me, a tornar-me humano.

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