Estou sentado na cama Tenho frio nos pés Tapo-os com o edredão Este começa a subir A subir A subir E quando dou por mim Estou a dormir
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A mostrar mensagens de 2015
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Os lobos entraram na via da esquerda ultrapassando tudo e todos. Corriam desalmadamente. Corriam atrás das suas almas. Foram roubadas, estropiadas, arrancadas do seu corpo e largadas nos confins do mundo. O mundo anda às rodas e os confins vão-se afastando cada vez mais, mas os lobos circulam na via da esquerda tentando contrariar a entropia e gravidade. Entendiam a gravidade da situação, assim como a sua impressibilidade. Não poderiam descansar sem alma, não conseguiriam ter paz. A via da esquerda estava desimpedida, não circulava vivalma. Os lobos uivavam com tamanha dor, raiva, medo. Um cocktail emocional que foram forçados a tomar e que abria caminho. Caminho sem fim. Esperemos que a via da esquerda não termine.
Uma Casa Cheia de Livros
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Os livros, esses animais sem pernas, mas com olhar, observam-nos mansos desde as prateleiras. Nós esquecemo-nos deles, habituamo-nos ao seu silêncio, mas eles não se esquecem de nós, não fazem uma pausa mínima na sua vigia, sentinelas até daquilo que não se vê. Desde as estantes ou pousados sem ordem sobre a mesa, os livros conseguem distinguir o que somos sem qualquer expressão porque eles sabem, eles existem sobretudo nesse nível transparente, nessa dimensão sussurrada. Os livros sabem mais do que nós mas, sem defesa, estão à nossa mercê. Podemos atirá-los à parede, podemos atirá-los ao ar, folhas a restolhar, ar, ar, e vê-los cair, duros e sérios, no chão. (...) Os livros, esses animais opacos por fora, essas donzelas. Os livros caem do céu, fazem grandes linhas rectas e, ao atingir o chão, explodem em silêncio. Tudo neles é absoluto, até as contradições em que tropeçam. E estão lá, aqui, a olhar-nos de todos os lados, a hipnotizar-nos por telepatia. Devemos-lhes ...
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Não vi o eclipse da lua, esteve gigante e vermelha não é verdade? Vi-a hoje. Enorme, brilhante, pura. Olhei na sua direção com muita atenção enquanto caminhava. Esperava ver algo a mexer, fumo a sair de uma qualquer chaminé lunar, mas nada... Tudo quieto lá e tudo tão inquieto cá. Inquietude que nos principia, estimula, anseia. Parecemos um iogurte líquido em constante agitação. Será que além da terra existe inquietude? Será que cantam a inquietação? De que cor é a lua? Cinzenta? Mas porque me parece tão branca. Lembra-me uma bola de neve que hoje rolou para perto. Parecia tomar o tamanho de planeta. Olhei-a, mas desisti. O que procurava não estava na vertical, mas sim na horizontalidade do meu olhar. Baixei o olhar do luar e encontrei um universo - cheio de planetas, luas, galáxias, constelações. Um universo no teu olhar.
Nevoeiro
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A extinção da vida na terra será causada por um nevoeiro. Um espesso nevoeiro branco abater-se-á sobre tudo e o silêncio irá reinar. Extinção pela pureza. Talvez nem seja toda a vida a desaparecer, algumas espécies poderão sobreviver servindo-se da selecção natural. Porventura serão capazes de se adaptar, conseguirão desenvolver os mecanismos necessários. As espécies que se servem de outros sentidos, para além da visão, estarão em vantagem. O mal do ser humano é ter dado primazia à visão. A visão vê o bonito e o feio, reconhece-os, mas não é o suficiente para a pureza. A pureza necessita de um sentir total. O nevoeiro é puro porque não é palpável, mas deixa marca, é sensível e afeta os nossos sentidos. A instalação do nevoeiro não provocará o caos. Aparecerá, apenas. Ninguém dará por si. Uma bela manhã. Nevoeiro. Fim.
Saudade
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Amor escrevo-te. Escrevo-te ao lado do nosso desenho. Escrevo as saudades. Tento escrever as saudades. Tenho tantas que as palavras se esgotam antes que chegue a meio. Só não sinto a necessidade de escrever as saudades quando estou contigo. Por mim estava sempre contigo. Por nós também. E se enjoasse bebia uma água das pedras, fazia uma careta e dizia: “Estou a brincar, não me enjoo de estar contigo”. Gostava de escrever a saudade contigo a meu lado. A espreitares enquanto te dizia: “Não olhes!” Nem isso nem nada te impediria de olhar. Olhar com um sorriso maroto. Na tua marotice perguntavas: “O que escreves?”. “Saudades do meu amor” respondia-te, entrando na tua marotice pouco subtil. “Tens saudades do teu amor?”, dizias fixando-te em mim. “Escreves saudades minhas?” Levantava os olhos da folha, pousava a caneta – o que escrevo para ti é permanente – e beijava-te, seguido de um sorriso sim. A saudade, nesse momento, ficava em suspenso, como tudo fica, todo o infinito em s...
Simpatias ocultas
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Eu estou tresloucado, bem percebo. No entretanto, se fosse meu intuito tentar justificar-me, eu diria que é facto inegável que uma infinidade de simpatias das coisas pelas coisas, mesmo entre aquelas que habitualmente consideramos de todo inanimadas, se revela já à nossa compreensão, posto que de uma maneira incompleta; a amplificação a que me arrojo não é pois tão disparatada, como à primeira vista parecia. O que é a lei universal da atracção? E a atracção eléctrica e a atracção magnética? E a cristalização de certos corpos? E o que são as afinidades químicas?... Mas não multipliquemos os exemplos, o que seria tarefa interminável. O que se está adivinhando é uma tendência universal para a escolha, para a preferência, para a selecção; o amor, na acepção amplíssima da palavra, regendo o mundo inteiro!... Admitindo agora que o espírito do indivíduo humano, quando em liberdade de acção pela morte do indivíduo ou por outras causas, não constitua uma excepção a esta regra de tendênci...
Gin
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Estou aqui. Estou a alguns quilómetros de distância. Tenho um copo de gin com o qual tento acalmar as saudades. Saudades de te ter. Bebo este gin e penso no teu corpo. Nas suas curvas por onde caminho e me perco. Pouso o copo e penso que este gin é fraco. Não foi feito por ti. Não é degustado a olhar-te. Ouço o acompanhamento musical. Joy Division. A querer dizer-me que love will tear us apart . Mentira de vidas vividas com apenas um copo de gin . Uma casa com dois copos de gin é sinal de prosperidade. De longas conversas cronometradas pelas ampulhetas de gelo. Assim será a nossa casa. Com este gin , brindo a esse futuro. Dou um gole e sinto os teus lábios. Os teus beijos a aquecerem o meu corpo. A noite não é fria, mas o teu calor é bem vindo. É aconchegante. Outro gole e na ausência de cheiro, surge o teu perfume que vem do ondular do teu cabelo. Do gingar do teu corpo ao som dos Nirvana. Nunca soaram desta forma. Sensual. Um novo gole. Fecho os olhos ...
Arrival of the birds
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“Rápido canta a tua canção, os pássaros estão a chegar!” Fecho os olhos e sinto a tua voz a ecoar pelo meu corpo, as minhas cordas vocais ressoam com a tua melodia e o chão torna-se leve. A gravidade pára e nesse momento sinto poder voar, tocar nos céus como os pássaros e seguir as rotas migratórias sempre na tua direção. “Não cesses! Está a dar resultado!” Elevas o tom e com isso elevas o meu espírito. O meu ser torna-se humano e o meu coração palpável no peito. Os seus batimentos são como as asas que cortam o vento em ventos e passam por ele, passam pela ausência e criam um todo. “Os pássaros estão a rodear-nos! Conseguiste!” Juntam-se bem junto de nós numa espiral que vai até onde a vista alcança. Num rodopiar coreografado, bailam em síncrono. Aproximo-me de ti. “Agora estamos só nós!” Beijo-te.
Stalk(h)er
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Era o aniversário da amiga deles. Ele e ela não se conheciam. Ele conhecia a amiga do tempo do secundário e ela conhecia a amiga da faculdade. Quando ela chegou a casa da amiga ele já lá estava. A amiga apresentou-a a ele e ao resto das pessoas que se encontravam na festa. Desde o momento em que ela entrou que lhe despertou a atenção. Com o olhar acompanhava-a por onde quer que estivesse ou fosse. Aproveitava cada oportunidade para chegar perto dela, participava em conversas onde ela estivesse envolvida. Ela tinha-o cativado. Mesmo quando começaram a chegar mais pessoas ele nunca a perdeu de vista, sabia sempre onde estava. Passadas umas horas todos cantaram os parabéns à amiga e comeram bolo. Depois disso algumas pessoas começaram a sair, mas ele continuava pois ela permanecia. Uma hora depois do bolo ela viu que se fazia tarde e despediu-se da amiga. Ele ficou ansioso, ela ia-se embora.
Panoptismo & voyeurismo: serão assim tão diferentes?
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“Não procures esconder nada; O tempo vê, escuta e revela tudo” Sófocles, dramaturgo e pensador grego (século V a.C.) O presente artigo propõem-se perceber se poderá existir algum tipo de relação entre o conceito de panoptismo e a perversão voyeurista, que tipo de semelhanças pode ser encontradas entre ambos e se será possível considerar algumas das manifestações voyeuristas como ramificações do poder disciplinar originado a partir do panoptismo. A literatura não é explícita relativamente à problemática aqui levantada, isto é, não foi encontrado nada que refira que o voyeurismo possa ser visto de acordo com o conceito de panoptismo ou que estes estejam de alguma forma relacionados. Por conseguinte, apenas se podem fazer inferências e apresentar argumentos que façam sentido e que possam de alguma forma clarificar o dualismo panoptismo/voyeurismo. Panóptico Nos finais do século XVIII surgiu uma construção arquitectónica conhecida como panóptico de Bentham que veio alterar...
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Com o mesmo olhar, contou-me das doenças que mataram as escravas que tinha levado e, sorrindo, contou-me de como tinha ouvido o meu nome pronunciado em muitos países. Falou-me do país onde os homens vendiam livros em canoas numa lagoa maior que dez cidades, disse-me que percebeu que o meu nome estava escrito num dos livros. Falou-me de um velho e desdentado vendedor de livros numa canoa, a pronunciar o meu nome no meio de uma língua indecifrável. O príncipe de calicatri sabia dizer obrigado em mais de noventa idiomas; sabia dizer o meu nome é príncipe de calicatri em mais de cinquenta idiomas; mas não sabia ler, nem sabia escrever. E repetiu o meu nome na voz daquele velho. Falou-me depois do país onde as mãe liam os meus livros aos filhos, disse-me que as palavras que eu inventava eram as primeiras palavras que aquelas crianças aprendiam. Falou-me depois do país onde os meus livros eram queimados, onde os guardas perseguiam as pessoas que escondiam os meus livros dentro de caixas de ...
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Ele viva sozinho num apartamento T1. Ele gostava muito de falar, mas como vivia sozinho falava consigo. Os vizinhos ouviam e achavam tudo aquilo muito estranho. "Está sempre a falar, mas nunca vemos ninguém a entrar ou a sair!" dizia um vizinho. "Deve ser maluco" comentava outro. Ele apercebeu-se disso. Os vizinho olhavam de soslaio e sussurravam entre si. Ele não queria deixar de falar, dava-lhe muito prazer. Então teve uma ideia. Adotou um gato. Agora sempre que os vizinhos o ouvem a falar exclamam: "Lá está ele a falar com o gato." Nunca mais foi alvo de olhares ou sussurros. Em vez disso agora dizem-lhe: "Bom dia! Como está o seu gato?" E com isto pode continuar a falar. Moral da história: Adote um animal.
Hoje Tomei a Decisão de Ser Eu
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Hoje, ao tomar de vez a decisão de ser Eu, de viver à altura do meu mister, e, por isso, de desprezar a ideia do reclame, e plebeia sociabilizacão de mim, do Interseccionismo, reentrei de vez, de volta da minha viagem de impressões pelos outros, na posse plena do meu Génio e na divina consciência da minha Missão. Hoje só me quero tal qual meu carácter nato quer que eu seja; e meu Génio, com ele nascido, me impõe que eu não deixe de ser. Atitude por atitude, melhor a mais nobre, a mais alta e a mais calma. Pose por pose, a pose de ser o que sou. Nada de desafios à plebe, nada de girândolas para o riso ou a raiva dos inferiores. A superioridade não se mascara de palhaço; é de renúncia e de silêncio que se veste. O último rasto de influência dos outros no meu carácter cessou com isto. Reconheci — ao sentir que podia e ia dominar o desejo intenso e infantil de «lançar o Interseccionismo» — a tranquila posse de mim. Um raio hoje deslumbrou-me de lucidez. Nasci. Fernando...
Amor! Amor!
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O amor é feito de citações. Frases feitas. Não se enganem é mesmo uma experiência maravilhosa. Aquece nos dias frios e aconchega nos dias quentes. O amor é a 1ª, 2ª, 3ª, 4ª impressão. É uma construção. Com o outro. O amor é nós. Nosso. É feito na partilha. Também é dor. Dor de não poder amar mais. Dor de não ser amado por quem se ama. O amor não se gasta. É inesgotável. É potável e aconselhável. Alimenta-se a si próprio e o nós é o combustível. Até os perversos amam. Têm é algumas particularidades que os diferenciam, desde que a integridade física e psicológica esteja garantida, é uma forma de amor. Se colocarmos um ser humano numa peneira, como os garimpeiros fazem na sua demanda de ouro, a pedra preciosa que iria sobressair seria o amor. O amor é como ter todo o outro. Já tiveste todo o outro? Não. Sentes amor? Sim. Então és dono de todo o ouro. O amor não esquece o passado, aceita-o. O amor é como navegar num oceano imenso. É imp...
Musgo
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Musgo delicado? Musgo resistente? Musgo que me prende Trepa sobre mim Rasga a minha mente Tapas a minha boca Sufocas o meu olhar Pesas e afundas Incapacitando-me de andar Agora vazio A entrada persegue Para me encher Com a tua seiva de nada Cresces sem parar Sem parar Sem parar E extingues o meu ser Nota: O ser humano como o musgo (ser simbiótico) é um sistema aberto sendo recetor e efetor, mas existem exceções à regra, seres parasitas em registo de sistema fechado
Liberdade
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Já fui recluso. Fui aprisionado. Enfiado num pequeno cubículo situado nos confins do mundo. Aí estive preso. A minha liberdade tinha sido colocada em suspenso. Fui condenado por questionar e trancado sem poder apelar a recurso. Durante o meu confinamento não vi uma única pessoa, nem uma sombra que se assemelhasse a tal. A minha única companhia era o meu guarda, o carcereiro, também um condenado. Havia sido condenado pelo crime de despersonalização da humanidade e a sentença do julgamento foi a de ter de me guardar até ao fim de uma das nossas vidas. Sei da existência de tal sujeito pela simples pronúncia de um gesto. Não conversávamos, não dirigíamos uma única palavra ao outro, apenas um gesto, o de fazer passar o tabuleiro da comida. Através dessa momice fiquei ciente da sua presença e da sua função. Durante vinte e quatro anos esse foi o nosso único diálogo, a nossa única forma de comunicação. Nunca vi o seu rosto ou qualquer outra parte do seu corpo. Nesses anos todos n...
As boas pessoas
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As boas pessoas passam dificuldades(?) As boas pessoas hesitam(?) As boas pessoas duvidam(?) As boas pessoas fazem o bem a muita gente(?) As boas pessoas conseguem ser boas por muito tempo se a bondade lhes for solicitada(?) As boas pessoas apaixonam-se(?) As boas pessoas têm sempre uma palavra amiga para toda a gente(?) As boas pessoas brindam pelo futuro(?) As boas pessoas não são esquecidas(?) As boas pessoas vivem e deixam viver(?) As boas pessoas são boas pessoas(?) As boas pessoas existem Estão por aí Vagueiando pelo mundo
Pára-me de Repente o Pensamento
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Pára-me de repente o pensamento Como que de repente refreado Na doida correria em que levado Ia em busca da paz, do esquecimento… Pára surpreso, escrutador, atento, Como pára um cavalo alucinado Ante um abismo súbito rasgado… Pára e fica e demora-se um momento. Pára e fica na doida correria… Pára à beira do abismo e se demora E mergulha na noite escura e fria Um olhar de aço que essa noite explora… Mas a espora da dor seu flanco estria E ele galga e prossegue sob a espora. Ângelo de Lima
Olá Mãe e Pai
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Vocês deram-me tanto. Continuam a dar. Vão continuar a dar. Eu sou eu porque vocês são vocês. Consigo olhar em frente, de frente porque vocês me seguram. Não preciso de tatear na escuridão pois tenho o caminho clareado pela vossa luz. Avanço sem medo pois sem que a cada passo não me afasto de vocês [aproximo-me] e sinto que me posso atirar que vocês apanha-me. Não me deixam cair, mas deixam-me andar. Avançar. Sou um sortudo. Sou vosso filho. Tenho capacidades que vocês cultivaram em mim. Tenho objetivos e vocês auxiliam-me a cumpri-los. A não desistir. Vocês não desistem de mim. De nós. O meu irmão, a melhor prenda que me deram. O nosso orgulho. Meu e vosso. Como eu quero ser. O vosso orgulho. Alguém que consiga fazer com que andem de queixo erguido e ao qual digam “É o meu filho”. É incrível ser vosso filho. Ser amado por vocês. Incondicionalmente. É incrível poder chamar-vos Pai e Mãe. Eu acredito em vocês. Mesmo apesar das minha...
Mãe
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Carregaste comigo no teu ventre Carregaste comigo no teu colo Carregaste comigo pela mão Carregaste comigo pelo sorriso Carregaste comigo pela liberdade Carregas comigo pelo coração No meu No teu A palavra mãe O amor (é) Incondicional (é) Recíproco Orgulho-me de te poder chamar mãe Obrigado por permitires que seja teu filho
Temos tanto para escrever
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Tenho-te dito que ultimamente não tenho escrito. Disse-te que quando andava acompanhado da solidão a escrita fluía e é verdade, mas agora entendo o porquê de me faltarem as palavras. Quando só, escrevia sobre a ausência, mas esta encontra-se colmatada. Tu vieste resolver o meu problema de expressão e as palavras escritas que ditavam vontades, desejos e quereres têm agora um destino e como uma seta cortam o vento na tua direção. As palavras são agora ditas, mas continuaram a ser escritas pois tenho tanto mais para te dizer, para te escrever.
Solidão?
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Corria um dia sereno onde nada se inquietava, ninguém suspirava, apenas vivia-se mecanicamente sem que o momento passado fosse relembrado. Robotizado, sem sentido nem direção abriu os olhos. Acordou. Recebeu um novo dia com a apatia e nem vontade tinha de dizer bom dia. Levantou-se para encarar o mundo de corpo curvado e cabeça baixa. O seu mundo era o chão, não encontrava prazer no horizonte. Procurava moedas, encontrava lixo, pastilhas coladas ao chão, tão antigas que mais pareciam fosseis. Respirou uma, duas vezes. Isso serviria para o dia. O respirar não lhe era importante, pois não permanecia com ele. Mal entrava já estava a perguntar onde era a saída. Ele estava ele, não estava sozinho. Nunca se sentiu sozinho, pois nunca tinha tido nada. Como é que se sente a solidão se esta nunca foi presente? A solidão é um presente que é dado por um outro, mas o outro era inexistente nele. Saiu e andou. Não fazia nada. Apenas caminhava. Caminhava com as horas. Cada segundo er...
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Amote mesmo muito e a cada momento que passa esse amor torna-se maior, mas continua sempre tão nosso. Fazer amor contigo é verdadeiramente fazer amor, é entregarmo-nos total e completamente, sem medos nem receios. De cada vez que fazemos amor contamos uma história, pintamos um quadro, tocamos música... O nosso amor é uma arte que cultivamos e que dá frutos lindíssimos.
Nuvole Bianche
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Ela entrou no carro e não disse nada. Virei-me para ela e disse “Saímos já”. Ela apenas lançou-me um breve sorriso e acenou ligeiramente. Enquadrou as suas costas com o banco e aí permaneceu, calma e tranquilamente. Vestia um dos seus vestidos ligeiros, ornamentado por flores que pareciam flutuar após uma leve brisa as ter levantado do chão. Olhava-a pelo espelho retrovisor, sentada quase sem fazer peso sobre o acento, dotada de uma ligeireza que até às penas fazia inveja. Ela sentada no banco de trás e eu no da frente, era eu que conduzia o veículo. Dou à chave, coloco a primeira, destravo e carro e sigo caminho. Não pergunto para onde vamos, sei exatamente. Ela não me disse qual o destino, mas sabia para onde tinha que a dirigir. A viagem segue e nós seguimos com ela e com o silêncio. Silêncio puro, sem constrangimentos, vergonhas ou incompetências linguísticas. Apenas silêncio. Tão cristalino que me sentia a conduzir por águas translúcidas. Tal como os seus olhos que durante a viag...
Depósito de bagagem
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Tinha desistido do amor! Não posso ser dramático a esse ponto. A verdade é que a minha relação com o amor equivalia àquilo que na física se denomina por sistema fechado. Eu dava (ou queria dar), mas não recebia (positivamente). Como assim andava o amor, decidi que seria melhor que o pusesse em pausa para ponderar o que fazer a seguir. Tinha chegado à estação de comboios do Rossio e reparo que num canto encontram-se uma série de cacifos, aproximo-me para vê-los melhor e leio na inscrição "Depósito de bagagens". Era exatamente isto que procurava, sem hesitar abro um dos cacifos e depositei o meu amor lá dentro. Coloquei o meu amor em espera. Tinha-se tornado um fardo que não conseguia suportar (mas nem por isso me sentia aliviado). Fechei a porta e paguei a quantia respondente a uma embalagem pequena (assim andava o meu amor). Inseri três euros que me assegurava um aluguer para um período de vinte e quatro horas. Um pequeno custo para um falso alívio. Daí em diante, todos os...
Dia
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Andava e o dia passava Corria e o dia acelerava Parava e o dia troçava Dizia que o dia era para mim inalcançável Não me rendi Peguei numa caneta Numa folha branca e disse para comigo “Dia, vou-te apanhar!” Precipitei-me a escrever “dia” Queria ganhá-lo Olhei para as letras Estas estavam desencontradas Não continham um D Nem um I Mas havia um A, na verdade dois E um N Surgiu algo diferente, inesperado Algo me tinha alcançado Li a palavra Ana E nela vi a minha vida
Ninguém à vista
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- Quem morreu? - Ninguém. - Então porque estas com cara de enterro? - Ninguém morreu! - Já percebi, ninguém morreu. Houve funeral? - Sim. - Quem foi? - Ninguém. - Outra vez com o ninguém! - Ninguém foi ao funeral. - Como é que ninguém pode ir ao funeral se ninguém morreu? - Simples. O funeral era de ninguém, por isso ninguém morreu. Ninguém queria ir ao seu funeral, por isso ninguém morreu. - Mas como ninguém pode ir ao seu funeral se morreu? - Ninguém morreu. Ninguém foi ao funeral. - Não entendo. E então como ficamos? - Aqui. - Aqui? - Sim, aqui estamos bem.
Palhaçada
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Palhaços cinzentos gritam “mãos ao alto” enquanto irrompem pelo banco. Não estão para comédias. Uma mulher grita em horror e um deles dispara a matar. Outro chega junto ao balcão e diz para a mulher que estava a atender “cheira a minha flor”. Ela permanece imóvel e ele grita “cheira!”. Muito devagar a mulher aproxima-se da flor na lapela do casaco dele e um líquido atinge-a na face. Ela começa a gritar. Era ácido. Estes palhaços tinham um sentido de humor peculiar. As restantes três pessoas encontravam-se num profundo terror. Enquanto se divertiam um terceiro palhaço pendurou uma corda com um laço bem apertado e enrolou-a à volta do seu pescoço e enforcou-se. O choque e o pavor paralisaram os reféns. Os outros palhaços que agora são só dois prosseguiram a pregar partidas. Um deles tirou uma tarte de um saco, acercou-se de um homem e fez pontaria à carta. No embate começou a escorrer sangue. A tarte tinha um recheio de pregos. Agora eram duas presas e dois palhaços. Uma terceir...
Vieste ter comigo
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Larga o oceano de lágrimas Limpa o suor que corre na minha camisa Conta-me o que se passa A verdade não me preocupa E às mentiras faço olhar descoberto Encosta-te a mim Canta-me as tuas mágoas As boas e as más Eu sou o teu contentor Deposita-as em mim Como tatuagens Usa o meu corpo como expiação Não é pecado