Quando ela dormiu pela primeira vez na minha cama. Nunca hei-de esquecer esse dia. Deixe de ter uma cama, passei a ter a nossa cama que nos embala e protege dos monstros que vivem no armário e debaixo da cama. Eu tinha medo, dormia sozinho num espaço frio a habitado por sombras. Ela chegou e varreu, mandou-as para debaixo do tapete como se faz com o pó que não queremos que fique a flutuar no ar. Ela limpou o meu quarto, tornou-o habitável. Ela veio salvar-me. Perguntei como lhe podia agradecer e ela disse num tom suave “tenho sono”. Dei-lhe a minha cama. Preparava para me deitar no chão, mas continuava com medo, medo irracional. Invisual. Acanhado perguntei-lhe se podia deitar-me na cama e ela respondeu-me com um sorriso. Deitei e encostei-me à beira dela, não a queria incomodar. Minha salvadora. Com o édredon – o manto protetor – fechei os olhos para afastar o medo e senti algo quente. Ela aproximou-se de mim. Pressionou o seu corpo de encontro ao meu. Aqueceu-o. Afastou os últimos m...
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Ela
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Ele chorava a morte dela. Um repentino ataque, vindo de parte incerta havia acertado em cheio no seu coração e ela pareceu. E com ela uma parte dele pareceu, uma parte que não iria mais recuperar, pois ele tinha perdido a capacidade de regeneração, tinha desaparecido com ela. Ele lamentava a morte, lamentava a vida e tudo o que se encontrava pelo meio. O mundo escurecia, a noite predominava no dia e o fim já tinha passado de prazo. A passividade passava a fazer a sua rotina e o entorpecimento era o seu alimento. Ela fazia-lhe falta. Faltava-lhe um pedaço, a alma. Os sentidos que sentia eram de vazio. Amaldiçoava o tempo e o espaço, esses conceitos subjectivos que foram objectivos quando atuaram sobre ela. Quando a fizeram abandonar o mundo cedo de mais. Não houve pré-aviso, eles não disseram nada, limitaram-se a vir buscá-la e ela nem pode reagir, não se pode defender. Indefesa foi levada deste mundo e levou consigo o mundo dele. Ele olhava-a deitada, branca como o cal, vestida com o ...
Senti alguém a bater às portas do meu coração
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Encontrava-me sentado no velho sofá da casa sem alicerce. O mundo era cinzento, tóxico dependente de mágoas e tristezas. Estava para ali deixado, acabado, sem ninguém que me acudisse. Sozinho com o mundo. De repente ouvi baterem à porta e o meu rosto coberto de pó moveu-se fazendo-o pairar no ar até assentar novamente. As minhas articulações rangiam, achavam-se emperradas por não lhes ser dada atenção. Virei e olhei primeiro à esquerda e depois à direita. Repeti estes movimentos duas vezes para me certificar, mas a realidade é que não existia nenhuma porta nas proximidades. Delirava. Pensei que a partir daquele momento era feito de pó e delírios. Voltava ao passivo quando vindo do nada voltei a ouvir o bater, não podia ser um delírio, aquele toque tinha o som da verdade. Voltaram a bater e continuava sem perceber a sua localização. Voltaram a bater, desta vez com mais veemência, como que gritando “estou aqui” e foi aí que vi, que senti. O som vinha do meu peito, o meu coração voltava a...
Para um dia de casamento
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Num dia de chuva Saímos à rua Tínhamos um objetivo em mente Comprar um presente Palmilhamos ruas e ladeiras Descansámos em cadeiras À nossa volta os idiomas eram diversos Mas na nossa cruzada estávamos imersos Na procura incessante Por algo interessante Vendedores tentavam ludibriar-nos Queriam ridicularizar-nos Mas nós estávamos concentrados E não seriamos enganados Escapávamos das artimanhas Destas autênticas piranhas Conversávamos entre nós Queríamos desatar os nós E chegar a um destino Tentando manter algum tino Encontrámos o presente perfeito Algo de bastante respeito Um quadro de azulejo Que sobreviveu ao terramoto no Tejo Entrámos para o preço sondar E logo a nossa cabeça começou a rodar Novecentos euros era o que pediam Nem podíamos acreditar no que diziam Saímos de cabeça baixa, despedindo do senhor Como seria possível melhor Tristes fomos procurar consolo Queríamos algo doce, tipo um bolo Passamos pelo Santini...
O segredo
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Fabulei com o segredo Que me havias de contar Não nego que tinha medo Que me fosses largar Cheguei perto de ti Emprestei-te o meu ouvido Fazia-me de forte, mas tremi Não sabia o que teria havido Vinhas com ideias de profanar Querias ser bem atrevida Pôr-me a cantar Sem meia medida Ao princípio não percebi O que querias dizer E sem dar conta senti O sangue a ferver
Completo o monstro em mim com um sorriso encarnado
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The faith in the world Is just a temporary state Bruised with binding ignorance Moral is deceitful And angels dance In a garden full of serpents Stay down Lay down Drop down Your guard And pray Life's real when death approaches Fainting in the realm of the souls The blood on you face The shame of the wicked With cleansing eyes Hate spoke so loud That you became def Truth? It's something unknown Living is a simple chain of memories That the undead build upon us Rise and stand for yourself 'Cause in the end you will die
Ano um - parte 1
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Um ano de esperança Um ano de certeza Um ano onde a realeza Se resume à tua beleza Um ano de dança Um passo de leveza Um ano onde a clareza É sentado à tua mesa Um ano de andança Sem tom de moleza Um ano onde na reza Tentamos erguer uma fortaleza Um ano de perseverança Um ano de safadeza Acompanhado de nudeza Com muita natureza
Amor em têla
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Liberdade na tela Compro uma caixa de aguarela Quero imaginá-la Liberdade na tela Compro uma caixa de aguarela Quero pintá-la Liberdade na tela Compro uma caixa de aguarela Quero sombreá-la Liberdade na tela Compro uma caixa de aguarela Quero clareá-la Liberdade na tela Compro uma caixa de aguarela Quero cheirá-la Liberdade na tela Compro uma caixa de aguarela Quero olhá-la Liberdade na tela Compro uma caixa de aguarela Quero abraçá-la Liberdade na tela Compro uma caixa de aguarela Quero beijá-la Liberdade na tela Compro uma caixa de aguarela Quero senti-la
Alucinação em sedimentos
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Ele alucinava nas horas vagas. Afinal tinha que arranjar algo com que se entreter quando não tinha que fazer. Nunca estava aborrecido. Os seus fantasmas faziam-lhe companhia. Como eram variados. Um deles consistia num rabo com asas que frequentemente sobrevoava o espaço aéreo dele e defecava-lhe em cima da cabeça. Era costume vê-lo de chapéu-de-chuva aberto, mesmo durante o verão. As pessoas achavam estranho aquele comportamento, mas não era ele que iria andar todo cagado. Ele alucinava com diversas coisas, algumas totalmente desconectas como é o caso de ver dejectos a saltar à corda. Ele alucinava muito com cocó. Ele é muito organizado, dir-se-ia até obsessivamente organizado. Dava-se bem com as suas alucinações, já se tinha habituado a elas e vendo bem não lhe causavam grande transtorno. Como mantinha uma boa relação com elas decidiu que todas as pessoas deveriam disfrutar delas, assim nunca mais iria ouvir que fulano tal estava sozinho. Ele iria erradicar a solidão! E não o iria...
A mão que segura a verdade
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Ele pensou em fugir mas não tinha destino, não sabia para onde se virar, todas as saídas encontravam-se bloqueadas e os acessos cortados, estradas desmontadas e pontes quebradas. Ele pensou em fugir mas o mundo não o permitia, ele tinha que ficar naquele lugar sem se poder mexer. Respirava a custo, o ar tornava-se rarefeito, cheio de toxinas libertadas pela atmosfera requebrada. O sol desapareceu, implodiu e deu origem a um buraco negro, sugava todas as estrelas e ele não tinha nenhum guia no céu. O céu escureceu para sempre. O silêncio reinava, ele pensou em fugir mas não havia fuga. O universo morreu, as espécies por descobrir pereceram. O silêncio gritou de tal forma que o apanhou desprevenido, ele correu sem sair do lugar e a arfar apercebeu-se que tinha que gritar, tinha que cortar o silêncio e dar sentido à sua existência, ele existia, permanecia na terra arrida e iria deixar a sua marca no infinito. Não iria ser engolido pelo antigo sol sem lutar. Ele pensou em fugir. Ele fugiu...
A história de um pedaço de pano
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Num pedaço de pano escrevo o teu nome. Seguro muito delicadamente como se da minha vida se tratasse. Pego em linha – da mais forte e resistente que encontrar – e uma agulha. Coso o pedaço de pano com o teu nome no meu peito. Agora andas comigo para todo o lado, sempre a meu lado. Bem perto do coração.
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Os meus olhos assim que te vislumbraram ficaram estasiados sem saber o que fazer, inquietos, nervosos por estar perante beleza. Não sabiam para onde olhar, se tivessem mãos não saberiam o que fazer com elas, ficariam a gesticular sem sentido. Pestanejei várias vezes as vistas para perceber se as vistas eram presentes. E eram. Cada piscar correspondia a um frame que me permitia reentrar na realidade, a realidade onde tu residias e onde tinha acabado de esbarrar.
Bonito ou belo
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Sabes qual é a diferença entre algo bonito ou belo? Ambos os adjectivos remetem para algo maravilhoso, uma obra de arte! Quando vejo algo belo sinto a necessidade de me afastar para o poder apreciar e quando estou perante algo bonito sinto a vontade de me aproximar e de conhecer cada recanto que o compõe. Tu és bonita!
Vertigem
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Caminhava ao longo do penhasco, tinha chegado no raiar do dia sem que fosse o meu destino final, mas aí estava. O penhasco era colossal fazendo corar o mais alto dos gigantes. Corria imenso vento, como se estivesse em perpétua competição consigo mesmo sobre qual de si iria chegar primeiro à meta. Num processo calculado dava as minhas passadas para que o vento, no meio da sua corrida, não me derrubasse. Para me acercar do penhasco escapuli-me por uma abertura que existia na fachada de uma casa que servia de portão. Só a partir dessa casa é possível aceder ao penhasco, mas esse monumento que era só fachada encontrava-se emparedado, mas já lá tinha estado e sabia que numa das janelas do piso térreo surgia a tal abertura pela qual passei. Já do outro lado, aproximei-me do limite e no seu fundo um mar agitado e irritado por não poder prosseguir o seu curso cuspia e esmurrava as pedras que compunham esta gigante estátua da natureza. Sempre que dava um passo à frente, recuava dois. As ve...
Num tom de gritar
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Ele engana-te. Tu sabes. Eu sei que tu sabes, fazes questão que eu saiba. Não sei como sabes, mas tu sabes, pois vociferar isso, apontas-lhe acusatoriamente as palavras [e possivelmente o dedo]. Gritas, berras, elevas a voz – tudo sinónimos para o teu comportamento. [Certa vez disseste que estavas a tratar-te] Dizes que ele anda com esta, com aquela, com a outra. Dizes “Pensas que eu não sei onde vais, quando sais porta fora!” . Sabes para onde vai, o que faz, com quem fala. [Dessa mesma vez gritaste que aí todos te batem – a tua mãe ainda te bate, a ti, mulher “feita” com duas filhas]. Ele faz trinta por uma linha, come esta, aquela, a outra. Tu sabes(?) e como reages? Gritas, berras, elevas a voz – tudo sinónimos para o teu modo de resposta. Como música de fundo, sim isto não vem a seco, surge uma voz, aliás uma vozinha, ou melhor uma vozinha que chora com a força de três anos [horrível acordar e deitar com esse embalar]. Lá estas outra vez a fazer uso à voz, má utilização, más pala...
Fardo
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Porque não desapareces Porque insistes em lutar Fazer da tua vida uma constante guerra Lutas sem sentido Sem estandartes Sem vencer Partes para a guerra com os olhos vermelhos As veias a pulsar de sangue combatente Deitas-te e acordas de armadura Armas-te com munições para armas que não possuis O ar é teu inimigo Até eu sou teu inimigo Não te conheço Nunca te vi Mas sou teu inimigo Massacras mundos Mas nunca mataste Não consegues matar Estás em guerra E para estar em guerra Precisas de poder ter que matar Não aleijas Nem bates Porque estás em guerra E queres o teu inimigo em forma Para poder rivalizar contigo Ser teu oponente A tua alma gémea Caminhas sempre a correr Foges de balas por disparar Lutas corpo-a-corpo com quem não podes atingir Abrigas-te em trincheiras que ainda não escavaste A guerra não te dá tempo Nem dá espaço para cavares uma trincheira Evitas ao máximo ser atingido És cuidadoso nisso Sabes que ...
Alternativa
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Sou uma contabilista de 53 anos que se viu forçada a trabalhar numa área totalmente diferente. Agora sou doméstica, faço limpezas em casa particulares, mas hoje não tive trabalho. Tenho quatro filhos para alimentar. O dinheiro que vou ganhando provém das casas que conseguir tratar, mas hoje nenhuma necessitava dos meus serviços e a alternativa que arranjei não me orgulha nem um pouco. Hoje vou ter que ir para a rua, vou ter que me prostituir para conseguir arranjar dinheiro. Odeio quando tenho que recorrer a isto. Sinto-me suja, usada, invadida. Não sou bonita, nem jeitosa, não sou interessante, sou simplesmente vulgar, por isso tenho que me contentar com os homens mais nojentos, pestilentos e perversos. Como percebem que necessito de dinheiro, fazem uso da sua imaginação da forma mais perversa possível. Já fiz coisas impronunciáveis que me fazem cair num pranto e tudo por uns míseros 20€. Após cada vez que sou usada não consigo evitar e vomito. Esse vómito é da cor das notas de...
Lápis amarelo
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Hoje peguei nos lápis de cor. Escolhi o amarelo. Não que precisasse de amarelo. Não ia pintar o sol. Mas a minha mão escolheu-o. Instintivamente. Inconscientemente. Trata-se de uma cor especial. De contornos frágeis. Quase imperceptível. Se for usado como tom principal surge uma angústia. Angústia de fragmentação. De perda de limites. Do contacto com a realidade. Do eu. Quando se usa o amarelo. Sem ser para preencher. Sente-se uma pressão. O bico do lápis quer perfurar a folha. Carrega-a. Quer adensar o seu traço. Tornar-se visível. Resistente. Eu quero usar o amarelo. Quero perceber os seus [meus] limites. A [minha] realidade. O [meu] eu.
Tosta & Ucal
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Acordei. Tudo indicava que iria ser um dia como tantos outros. Normal. Nada de especial era esperado que sucedesse nesse dia. Vou tomar o pequeno-almoço, apetecia-me uma tosta e fui buscar a tostadeira e para acompanhar decidi agitar um Ucal. Tomei-o em frente à televisão mas cedo comecei a sentir o cérebro a amolecer, por isso, acabei de comer e dirigi-me à casa de banho. Ia tomar um banho para despertar a preguiça. Era dia de semana o que significa que o prédio que habito estaria a meio gás no que diz respeito a ocupantes. A esta hora dominava o silêncio. No meio deste silêncio apenas ouvia a água do meu banho a correr. E de repente, apercebo-me de algo. O silêncio havia sido quebrado. De repente a casa de banho tornara-se um amplificador para um espectáculo sonoro que me aterrorizou. Sem aviso prévio começo a ouvir várias vozes, destacando-se uma voz que chorava intensamente, uma voz que proferia gritos primais e uma voz, feminina, que entoava uma canção. Este cântico soava a a...
Sobre a performance
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Um mundo governado por certezas científicas chegaria ao excelso da extinção de todos e qualquer tipo de tabu. Julius chega a afirmar que os tabus sobrevivem hoje por mera vergonha. O público da performance artística (e social) acabou com o choque da transgressão nele mesmo porque essa resposta é hoje esperada em todas as obras performativas, arrisco-me a dizer, na arte em geral. Esta é uma das razões principais e a primeira a apontar no termo e supressão da definição de transgressão como a temos vindo a enquadrar até aqui: a vulnerabilidade da arte saturou-a nela mesma. O espectador espera da obra de arte o condimento marginal e transgressivo que observou em outras obras, com igual relutância. A obra de arte (artes plásticas, pintura) tem a capacidade de provocar mas a sua existência é frágil e a sua passividade torna-a fraca. Aqui, a performance é caracterizada pelo contrário, é fugaz e activa, maioritariamente política, mas sucede que existe uma sobrelotação da performance em todo...
Fast food
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Entro num bar Sento-me ao balcão Peço algo com álcool Seja o que for, mas com álcool Quero adormecer Anestesiar os sentidos Olho em redor Um antro de mulheres preenche o espaço Um bufete de pernas à espera de serem abertas E comidas com os talheres certos Volto-me para a bebida Esta seduz-me com as suas cores E deixo-me vir na sua direcção À minha volta as mulheres caminham Perscrutam quem lhes poderá desabrochar Muitas passam por mim Devoram o meu espaço vital Numa dança de acasalamento Mas eu já encontrei a minha parceira O meu bailado bebido Uma dança na qual sou exímio Mas como tudo, o fim aproximou-se Interrompeu abruptamente os nossos passos E não a quis substituir Aliviada a tensão, paguei e levantei-me O caminho até à porta assemelhava-se a um campo de batalha Trincheiras de mulheres comprimem-se à minha volta No ar um aroma a molhado Abro a porta e o exterior estende-se Nós saímos, eu e a minha parceira E juntos caminhámos
Amor-próprio
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"Imaginem um homenzinho dos mais insignificantes, dos mais pusilânimes, renegado da sociedade, inútil para todos, absolutamente imprestável, absolutamente nojento mas infinitamente presunçoso e, ainda por cima, sem quaisquer talentos que pudessem justificar o seu amor-próprio doentiamente irritado. Aviso desde já: Fomá Fomitch é uma encarnação do amor-próprio ilimitado mas ao mesmo tempo muito peculiar, ou seja; daquele que é inerente à mais completa insignificância e, como é habitual nestes casos, um amor-próprio ressentido, oprimido pelos graves azares do passado, pustulento desde havia muito e, desde havia muito, espremendo inveja e veneno a cada novo encontro e à vista de cada novo êxito alheio. Escusado será dizer que tudo isto era condimentado pela mais monstruosa susceptibilidade, pela cisma mais louca. Perguntar-me-ão: donde vem um amor-próprio assim, donde nasce tal nulidade absoluta em pessoas que, até pela sua situação social, deveriam saber qual era o seu lugar? Pois b...
São e salvo
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Cheguei agora a casa meu amor! Podes ficar descansada, cheguei são e salvo. Bem sei que as visitas têm sido de curta duração e com elevados intervalos no tempo entre cada uma, mas é cada vez mais difícil andar com relativa segurança. O mundo continua infectado. Não se sabe o porquê, não se sabe como começou ou como irá acabar (se acabar). Utilizei o mesmo caminho de sempre, aquele que já mapeei e do qual conheço a disposição dos obstáculos e o peso e tamanho de cada pedra que enfeita este percurso. O caminho inspira alguma confiança - ainda não foi violado - e leva-me até ti, o que é um belo chamariz à sua travessia. Soube tão bem ver-te, aliás sabe sempre bem e poder aliviar a saudade faz-me ser capaz de respirar livremente. Sentir o peso do teu olhar e moldar os meus lábios ao teu corpo. E continuas tão bonita, tal como no primeiro dia em que te vi e me sorriste. Estás bem, em segurança. Espero que te saibam bem os doces que te levei, cada vez são mais difíceis de conseguir, to...
A Naifa, Bolero do Coronel Sensível que fez amor em Monsanto
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O Amor, Meu Amor
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Nosso amor é impuro como impura é a luz e a água e tudo quanto nasce e vive além do tempo. Minhas pernas são água, as tuas são luz e dão a volta ao universo quando se enlaçam até se tornarem deserto e escuro. E eu sofro de te abraçar depois de te abraçar para não sofrer. E toco-te para deixares de ter corpo e o meu corpo nasce quando se extingue no teu. E respiro em ti para me sufocar e espreito em tua claridade para me cegar, meu Sol vertido em Lua, minha noite alvorecida. Tu me bebes e eu me converto na tua sede. Meus lábios mordem, meus dentes beijam, minha pele te veste e ficas ainda mais despida. Pudesse eu ser tu E em tua saudade ser a minha própria espera. Mas eu deito-me em teu leito Quando apenas queria dormir em ti. E sonho-te Quando ansiava ser um sonho teu. E levito, voo de semente, para em mim mesmo te plantar menos que flor: simples perfume, lembrança de pétala sem chão onde tombar. Teus olhos inundando os meus e a mi...
Vidas
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Vidas eu tenho. Vidas eu tive. Vidas eu regateio. Vidas eu resgato. Vidas eu termino. Vidas do passado. Vidas do futuro. Vida do presente. Vidas são várias, que pertencem todas ao eu. Eu, esse que vive nas vidas. São rasgos de um pedaço de pano que enaltece ora a rigidez ou a fragilidade da vida. Vida essa que vejo segundo os meus olhos, mas eles não olham para fora. Olham para dentro, para a profunda sede de mim e vêem a vida. Não a que corre na realidade, mas sim a que caminha no pensar. No pensar da vida.
Pára
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Pára Pára Pára tudo Parei Estou parado Não preciso correr mais Não preciso esconder Não preciso fugir Encontrei A porta do fundo estava à minha espera Estava à minha espera Na porta do fundo O quê? Não tenho que olhar sobre o ombro? Não tenho que procurar? Ver onde está Avanço para a porta Mas estou parado Não preciso andar Não consigo andar? Consigo Sinto fixar Uma base Segurança Não preciso andar Posso parar Finalmente Calmo Tranquilo Com a porta do fundo Fundo que inalcançável Tornou-se visível Perceptível Com novos olhos Com antigas cicatrizes Cozidas sobre a pele Formando prateleiras de histórias Paro Imóvel Acompanhado Restrito à liberdade Que o nós apresenta